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Esporte

m de leitura Atualizado em 25/03/2022, 17:52

Após euforia da Eurocopa, realidade bate à porta da Itália, fora da Copa do Mundo

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de março de 2022

ALEX SABINO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os italianos tomaram as ruas do país em julho do ano passado para comemorar o que deveria ser a redenção do futebol nacional. A seleção havia conquistado a Eurocopa em grande estilo. Derrotou os ingleses em Wembley na final.

Depois da dor de não se classificar para a Copa de 2018 na Rússia, era a prova de que o time quatro vezes campeão mundial estava de volta.

Não estava. Nove meses mais tarde, jogadores, técnicos e torcedores tentam entender o que aconteceu. Com um gol de Aleksandar Trajkovski nos acréscimos, na quinta-feira (24), a Macedônia do Norte eliminou a Itália em Palermo na repescagem para o Mundial de 2022, no Qatar.

"Eu tenho orgulho dos meus companheiros. Estamos todos destruídos e quebrados, mas temos de começar de novo. É difícil falar sobre isso. Vamos continuar em um grande buraco", disse o zagueiro Giorgio Chiellini, 37, símbolo da conquista europeia no ano passado.

Um dos nomes mais importantes do futebol italiano nas últimas duas décadas, o defensor pode não estar no ciclo de preparação para o torneio a ser dividido por Estados Unidos, México e Canadá em 2026. Ele ainda não anunciou sua aposentadoria da seleção, ao contrário do que aconteceu há cinco anos.

Em novembro de 2017, ao empatar em 0 a 0 com a Suécia, em Milão, o país não se classificou para o Mundial do ano seguinte. Após a queda, Chiellini anunciou que não atuaria mais com a camisa da Azzurra.

Foi a partida que teve a imagem sintomática do futebol local desde a conquista da Copa do Mundo de 2006. Com o time a precisar de maneira desesperada do gol salvador diante dos suecos, o volante Danielle De Rossi se revoltou ao ouvir o pedido do técnico Giampiero Ventura para se aquecer antes de entrar.

Apontou para o meia-atacante Lorenzo Insigne, nervoso, a questionar o motivo para não ter sido escolhido um nome mais ofensivo.

Ventura foi execrado. Acabou demitido e desde então passou por Chievo e Salernitana, duas equipes de pouca expressão. A eliminação na repescagem para o Qatar aconteceu sob direção de Roberto Mancini, o mesmo treinador que levou a Itália ao título europeu em 2021.

"Espero que ele continue porque é essencial. Temos que voltar a vencer, ir de novo para a Eurocopa e daqui a quatro anos retornar a esta Copa do Mundo abençoada", concluiu Chiellini.

A competição europeia pode ser vista como um consolo, mas também como troféu que tem enganado os italianos quanto à sua força real. A última vez em que a seleção disputou uma partida de mata-mata na Copa do Mundo foi a final de 2006, quando bateu a França nos pênaltis.

Desde então, caiu na fase de grupos em 2010 e 2014. Se no Mundial no Brasil estava na chave considerada a mais forte (com Inglaterra, Uruguai e Costa Rica), na África do Sul teve como adversários Nova Zelândia, Paraguai e Eslováquia. Mesmo assim, não ficou entre os dois melhores.

Na Eurocopa, foi finalista em 2012, chegou às quartas de final de 2016 e levantou a taça em 2021.

Há um movimento de atletas para que Mancini continue no comando, mas, segundo a imprensa do país, ele considera a possibilidade de renunciar. Mesmo no futebol de clubes, a potência italiana não é a mais a mesma no continente. O último título de Champions League foi da Internazionale, em 2010. Desde então, apenas a Juventus chegou a duas decisões (2015 e 2017). Perdeu ambas. Não há nenhum time do país classificado para as quartas de final da competição nesta temporada.

Mas isso não é motivo para explicar 12 anos de ausência (no mínimo) na Copa do Mundo. Seleções de menos tradição e com ligas nacionais mais fracas do que a Série A vão ao Qatar.

A Suíça ficou em primeiro e garantiu a vaga no grupo em que estava a Itália, que poderia ter ficado com a liderança se tivesse derrotado a Irlanda do Norte fora de casa. Empatou por 0 a 0. Antes disso, o volante Jorginho, nascido no Brasil, teve nos pés a que seria a bola da classificação, em uma cobrança de pênalti diante dos suíços. Desperdiçou.

"O título em julho [da Eurocopa] foi minha maior alegria. Agora é a maior decepção da minha carreira", resumiu Mancini.

Ele fazia parte do elenco derrotado nos pênaltis pela Argentina, em casa, na semifinal da Copa do Mundo de 1990. Mas, na época, o temperamental atacante não se dava bem com o técnico Azeglio Vicini e foi pouco usado.

"É difícil aceitar o que aconteceu. Agora é hora de nos fazer algumas questões", tentou explicar o volante Marco Verratti, que vai ouvir a maior parte dos seus companheiros de Paris Saint-Germain discutir a expectativa para o Mundial, mas não estará lá.

Após o apito final em Palermo, a imprensa italiana começou a buscar explicações e culpados. É fato que a Itália não tenha mais um goleiro do nível de Gianluigi Buffon. Possui um meia-atacante talentoso, mas inconstante (Insigne), e não encontra um atacante de ponta do futebol europeu.

Mas, se Ciro Immobile não é Paolo Rossi, foi chuteira de ouro do futebol europeu (35 gols) em 2020. Contra a Macedônia do Norte, pouco apareceu, a mostrar mais uma vez que não consegue, pela seleção, exibir o mesmo futebol apresentado na Lazio.

É difícil achar culpados, até porque o estilo empregado por Mancini, de dar liberdade em campo aos jogadores e ser mais ofensivo do que de costume, vinha dando certo. Tanto que o país é o campeão europeia.

Os problemas poderiam impedir até a seleção de ser campeã mundial. Mas não se classificar para a Copa? De novo?

"Dói quando eu penso no pênalti que perdi contra a Suíça. Poderia ter mudado tudo. Vou pensar nisso pelo resto da vida", confessou Jorginho.

A ironia é que Trajkovski, o verdugo italiano, jogou por quatro temporadas no Palermo e tem um filho nascido na cidade que testemunhou a maior glória da história esportiva da Macedônia do Norte.