APOLO THEODORO
Não se sabe se estimulado pelo ''chá de abobrinha'' - apelido que tinha a nota antiga de mil cruzeiros - preparado e servido por ''Pai Homero'', momentos antes do time entrar em campo, os jogadores do Londrina, no jogo do último domingo, iam em todas as jogadas com uma disposição de fazer inveja ao Pinduca.
Folclórico zagueiro que jogou pelo Londrina nos anos de 1960 e cujo fato mais marcante da sua passagem por aqui foi ter simulado uma contusão, logo no início de um jogo contra o Atlético Paranaense, no VGD, para protestar contra os salários atrasados, Pinduca, como diz a metáfora futebolística, não perdia viagem quando saía pra pegar algum atacante que se aventurava pelo seu setor.
''Sem faz me rir eu não jogo'', já anunciava o vigoroso zagueiro no vestiário. Como a grana não saiu, Pinduca cumpriu o prometido: com menos de cinco minutos de jogo, no primeiro carrinho - sua especialidade - que deu nem levantou, já fez, ele mesmo, o tradicional gesto - girando os dedos indicadores, um sobre o outro - pedindo substituição. O jogo foi 5 a 1 para o Atlético.
Muito diferente do último domingo. Com o ''faz me rir'' já garantido e bem distribuído em campo, com gana, indo pra bola como um faminto ao ver um prato de comida, o Londrina acuava o adversário em seu campo defensivo, demonstrando que o gol era uma questão de tempo.
E foi num lance em que o bom zagueiro Vitor, depois de dividir corajosamente com um atacante adversário e, na sequência, dar um chutão pra frente, aliviando o perigo, que eu senti, pela segunda vez no dia, que o domingo seria alviceleste, querendo ou não querendo o São José.
Foi a segunda vez porque, no início da tarde, antes do jogo, ainda indeciso quanto a ir ou não ao Estádio do Café, a voz suave e o rosto bonito de uma adolescente foi o toque que me convenceu a ver o primeiro mata-mata do LEC na série D.
''Será que o tio vai demorar pra passar aqui e levar a gente no jogo?'', perguntou a mocinha com certa aflição, logo após o almoço, compartilhando sua ansiedade com os dois irmãos mais novos, todos torcedores do Londrina, os três não vendo a hora do tio chegar pra irem pro campo.
Na conversa que se seguiu, usando um termo da moda, fui contaminado pelo olhar brilhante da jovem torcedora, pelo seu jeito espontâneo e natural ao falar do seu gosto pelo futebol e pelo Londrina. Tudo isso e mais alguma coisa, que sei lá o quê, me intuíram que aquele domingo teria um final feliz.
Mas, com o lance da dividida e do chutão dado por Vitor, veio a certeza definitiva da vitória. A torcida ainda aplaudia a raça demonstrada pelo defensor do LEC quando a bola, que havia subido muito, quicou de volta ao gramado, quase em cima de um ''quero-quero'' que não perde jogo no estádio do Café.
Assustada com a bola, a ave levantou voando e gritando o seu canto característico - ''Quero, quero, quero...'' - enquanto no meio da torcida, um fanático torcedor, que vibrara com a jogada de Victor, gritou com fé, para delírio da galera à sua volta:
''É isso aí, hoje não tem pra ninguém, tem que levantar quero-quero, tem que gritar quero-quero, tem que querer dobrado, que assim ninguém 'guenta cum nóis!'''
E os jogadores, já ligados pelo chá de ''Pai Homero'', parecendo ter ouvido o grito estimulante do torcedor, dobraram mesmo o seu querer e aí, meu filho, parodiando aquele antigo refrão futebolístico pra provocar o adversário, ''foi canja, foi canja, foi canja de galinha, arranja outro time pra parar a nossa linha!''
Num piscar de olhos foram dois gols. No final do jogo, 3 a 1 no placar, só aplausos, rostos felizes, sorrisos escancarados e muita conversa cumprida aqui e ali; conversa de gente que, como por encanto, passou de pessimista azarado a otimista exagerado:
- E aí, meu filho, tranquilo?
- Bom demais, o Londrina ganhando só pode tá bom!
- É que venha o próximo, quem é o próximo adversário do Londrina?
- A Chapecoense...? Pode escrever aí, não tem time pra nós, vamos bater neles de novo!
- E pode escrever também, se hoje foram seis mil, no próximo jogo vão ser 12 mil torcedores!
Como não custa sonhar, o mesmo torcedor que deu o grito de guerra na hora do chutão do Vitor, que quase matou o pássaro, gritou de novo:
''Eu quero-quero mais, Tubarão, quero te ver campeão!''
Ouviu, Peter? Então trate logo de encomendar mais ''chá de abobrinha'' com ''Pai Homero'' antes que o meia Silvinho e o bom técnico Gilberto Pereira peguem o boné e deem no pé. Resumindo, pra torcida dar risada, dá ''faz me rir'' pra moçada, Peter, esta será sua grande jogada.





