Apolo Theodoro
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sexta-feira, 13 de março de 2009
Tique(te) nervoso 
Torcedor chega pra comprar ingresso antecipado pro jogo de quinta-feira no VGD e manda vê: Me dá um tique(te) nervoso aí, meu irmão! Ao ver que o vendedor não captou a sutileza, o torcedor falou com clareza: É brincadeira, eu quero um ingresso pro jogo do Londrina; é que ver o Londrina jogar hoje em dia da tique nervoso na gente, sabia?
A moça não sabia e o torcedor, pagando o ingresso, prometia: Hoje, no VGD, não vai ter apatia, vou subir no alambrado e gritar com quem fizer corpo mole, no VGD é ali, ó, na orelha do nego, ou o cara joga ou não tem sossego! E foi embora falando do jogo que, aliás, não fui ver.
Se nem o tempo bom me anima a ver jogo do Londrina, imagina com chuva, pode esquecer, nem no VGD. Preferi molhar o bico em casa, ouvindo o jogo pelo rádio o que, se economizou o dinheiro do ingresso, não livrou de me deixar possesso. E foi mesmo de enfezar: até aos 15 minutos de jogo o ataque do Londrina não meteu medo, só chutou uma vez no gol do Toledo. Enquanto isso do outro lado, depois de ceder seis escanteios, o time só não foi goleado porque o goleiro Fernando pegou um bocado.
Enfezado de ver o time tão acuado, me lembrei do cara do tique nervoso e no quanto deveria estar irritado: Se ouvindo rádio to assim neste estado, ele deve estar roendo o alambrado. Foi aí que fiquei imaginando qual seria seu tique nervoso. Será que é roer unha? Ou ele fica esfregando as mãos a cada momento de tensão? A mania do seu Mario, presidente do Corinthinha Londrinense, era ficar num vai e vem contínuo à beira do alambrado do VGD fazendo trejeitos a mais não poder.
Era engraçado de ver: se o time atacava, ele ia junto pro ataque; se perdia a bola, ele voltava junto com os jogadores pra defender; se um beque do seu time entrava de sola numa jogada, seu Mario fazia o mesmo do lado de fora e ainda gritava pro beque matador: Boa Ferri, trava aí que eu travo aqui!
Com o time no ataque, era comum ele chutar junto com o avante e, quando saía gol, vibrar feito o atacante. Certa vez, num jogo no VGD, pelo Campeonato Amador da cidade, ao mesmo tempo em que o centro-avante Gino enchia o pé e fazia o gol, seu Mario, que não tinha calculado bem a distância, também encheu o pé na base de concreto do alambrado e quase quebrou o dito cujo que inchou na hora.
Voltando ao jogo de quinta-feira, quando o Toledo fez um a zero, no final do primeiro tempo, fiquei imaginando o tique que o tal torcedor fez? Será que comeu o copo e só percebeu quando o amigo ofereceu outra cerveja e ele não encontrou o recipiente?
E quando o Londrina empatou a porfia, será que o tique da dor é o mesmo da alegria ou o circuito é outro na euforia? No final do segundo tempo, de tanto o time dar em cima, o juiz marcou pênalti para o Londrina. Como não há tique que resista a tal tensão, voltei a pensar no torcedor do Tubarão.
Estaria ele de olhos fechados, de costa para o campo, pra não ver o pênalti ser cobrado? Ou trepado no alto do alambrado esfregando, sem perceber, as mãos no arame farpado, vendo o pênalti ser cobrado e desperdiçado antes de se assustar com os dedos ensanguentados? Estava com a cabeça nessas fantasias quando o juiz apitou o fim do jogo e da agonia. Para o torcedor brincalhão é esperar o próximo jogo e repetir o refrão: Me dá um tique(te) nervoso aí, meu irmão!


