Que tal uma pelada?
Calma, não se assanhe, a coluna é de futebol e pelada aqui é aquele hábito salutar que é praticado semanalmente, ano após ano, até não dar mais, por milhões de brasileiros. Arredondando sem muita classe: na cama ou na grama, o brasileiro gosta de uma pelada. Como o espaço aqui é da bola, vamos falar da pelada de futebol - esta instituição secular que ocupou espaço definitivo no coração e na alma dos brasileiros, distribuindo felicidade a granel, sem preocupações de ordem política, econômica, social ou racial.
Pelada é alegria
Afinal, pelada que se preze tem lugar pra qualquer um. A alegria que o menino pobre da favela sente, correndo atrás da bola, num campo de terra esburacado na periferia, é a mesma sentida pelo menino rico quando estufa as redes do campo de suíço da mansão do condomínio. Só o cenário é diferente, mas isso não é problema da pelada que, como eu disse, não se mete naquilo que acontece fora das quatro - linhas: a pelada só se mete com os jogadores e suas bolas, com nada mais.
Pelada é tesão
Outro dia, neste mesmo espaço, falei da bola. Como bola sem pelada não serve pra nada, chegou a hora da pelada ser falada. Uma bola sem pelada, sem uso, encostada num canto, murcha em pouco tempo e, aqui pra nós, nada pior do que pelada de futebol com bola murcha. Bola de futebol tem que ser cheia, com os gomos duros, caso contrário a pelada fica desanimada, sem tesão. E, como disse o grande terapeuta Roberto Freire, falecido recentemente, sem tesão não há solução. E nem pelada.

Mudando o bico
  Na pelada, a gente não só se desliga das chatices do dia-a-dia, como, em contrapartida, também faz um descarrego psicossomático pra lá de satisfatório, embora alguns poucos exagerem na dose - seja enchendo o saco de todo mundo ou dividindo todas feito um Mauro Silva na fase. Mas a pelada suporta tudo, até desaforo, mas no final é só festa - é desempinar os bicos da raiva e empinar o bico na cerveja, pois, pelada sem cerveja só não é pior que a falta de pelada.
Virando o jogo
  Mas, deixando a pelada de lado, o que será que vai acontecer com o Orlando Bonilha? Só para comparar, o Renan Calheiros, que gostava de outra pelada, caiu por enrijecimento ilícito, será que o Bonilha, que também deve gostar de uma pelada, vai ser punido por sepultamento ilícito, levando mais gente com ele para o fundo do buraco? Isso, só saberemos de hoje em diante, até lá uma boa pelada para todos. De futebol, hein!
Boca
  Quem tem boca vai a Roma, mas quem tem Boca vai a Tóquio. E se quiser entrar nessa boca rica, o Fluminense vai ter que desbancar o Boca (Juniors) hoje à noite no Maracanã, onde milhares de bocas estarão torcendo para levar o time de Renato Gaúcho às finais da Taça Libertadores da América. Quem também pode abocanhar uma vaga na Libertadores é o Corinthians que, se não ficar de boca aberta, pode tapar a boca de muita gente por aí. Se tal não ocorrer, podem meter a boca. E não precisa ser à boca pequena.
Memória
  Ponta dos bons, driblador como poucos em sua época, Carioca estava jogando mal no Campeonato Amador de 1966. Com muitos e bons pontas no time ele vivia na reserva. Certo domingo, num jogo no distrito da Warta contra o time local, o técnico Lelé se aproxima dele e diz: ‘‘Carioca, hoje você vai entrar jogando, dê tudo o que você tiver no primeiro tempo, que no segundo você vai sair.’’ Alimentando a esperança de fazer uma grande partida e, assim, jogar os dois tempos, Carioca pegou a camisa e, realmente, acabou com o jogo, dos seus pés saíram os dois gols do Corinthians
Londrinense.
Memória (2)
  Depois do intervalo, Carioca se preparava para voltar ao campo quando Lelé gritou às suas costas: ‘‘Ei, Carioca, aonde você pensa que vai?’’. Fingindo não entender, Carioca responde: ‘‘Vou voltar pro jogo, você não viu...’’ ‘‘Claro que eu vi, mas combinado é combinado, e quem garante que você ia jogar tudo isso se eu não tivesse falado aquilo?’’ Um raivoso e decepcionante ‘‘você não podia fazer isso comigo, Lelé, seu fdp’’ foi o que saiu da boca do Carioca, enquanto atirava a camisa sete longe. À noite, ainda bronqueado, andou procurando por Lelé fim de tirar satisfação. Não encontrou.

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