Volta por cima
Quando Michael fez o primeiro gol do Coritiba, no jogo de domingo contra o Palmeiras, vibrei feito torcedor corintiano. E a vibração foi ainda maior no segundo gol quando ele deu um drible meio-elástico num defensor palmeirense que deve estar até agora procurando Michael, que deixou Hugo na cara do gol de Marcos que nada pode fazer senão ver os dois atacantes comemorando a vitória de 2 a 0 do campeão paranaense sobre o campeão paulista.
Pena de mim não precisava
Não sou torcedor do Coxa e nem corintiano despeitado querendo gozar com o... talento alheio. Naqueles dois momentos, a minha alegria estava em sintonia unicamente com a alegria de Michael, ex-jogador do Guaratinguetá, que pode acontecer neste Nacional. Futebol para isso parece que tem. Cabeça boa parece ter também, afinal a atuação do último domingo mostrou que ele superou rápido o trauma que viveu há cerca de um mês quando ainda atuava na equipe do Vale do Paraíba.
Ali onde eu chorei...
O jogo era contra a Ponte Preta e valia vaga na decisão do Campeonato Paulista. Aos 35 minutos do primeiro tempo pênalti a favor do Guaratinguetá que precisava ganhar. Encarregado da cobrança, Michael chutou e o goleiro Aranha defendeu. A cara de decepção dele após o fracasso era de dar dó - ficou tão abatido que foi substituído no segundo tempo. Durante a transmissão, um repórter informou que Michael chorava inconsolável no banco de reservas, bem diferente da cara risonha que apareceu na televisão no último domingo.
Qualquer um...
E foi justamente este contraste entre tristeza e alegria que me incentivou a revelar algo que aconteceu naquele dia em que ele perdeu o pênalti, erro frustrante que faz do cobrador a pessoa mais infeliz do mundo, pouco importando se o jogo é uma decisão do Campeonato Paulista ou do Torneio do Trabalhador, competição que aconteceu em Londrina há cerca de 15 dias e que teve muitas partidas decididas por penalidades máximas. Quem bateu e perdeu pênalti neste torneio que envolveu 132 times de futebol de Londrina sabe do que estou falando.
Chorava...
A dor dessa perda, diferente de uma botinada na canela, deixa cicatrizes na alma, marcas que nem o tempo apaga. No exato momento em que Michael se preparava para bater o pênalti contra a Ponte Preta, minha cabeça voou 40 anos até uma tarde de domingo de 1968. Foi um acontecimento dolorido, inesquecível. Não que eu tenha sido perseguido, torturado ou apanhado da polícia da ditadura como era comum naquela época, nada disso, não foi uma dor física, foi um sofrimento moral e nada teve a ver com política estudantil ou partidária.
Dar a volta por cima...
Naquela tarde, duas equipes amadoras de Londrina, Paraná e Corinthians Londrinense, decidiam qual delas seria a representante do Norte do Paraná nas finais da Taça Paraná de Futebol Amador de 1968. Vendo Michael se ajeitar, de repente, me vi de frente para o gol de entrada do VGD me preparando para bater pênaltis contra o Paraná. Diz uma das máximas do futebol que bater pênalti é uma responsabilidade tão grande que quem deveria cobrar era o presidente. No caso do Corinthinha isso era quase verdade: o presidente do time era meu pai.
Um homem de moral...
Aí, quando Michael correu para bater tive um mau pressentimento e... Ele errou da mesma forma que eu errei em 1968. Lembrando do que passei há 40 anos, tive pena de Michael naquele momento e torci para que não se deixasse abater por aquela infelicidade momentânea. Como vimos, ele não se deixou abater. E, com fui solidário com seu sofrimento passado, me sinto agora no direito de vibrar com a sua vitória presente. Parabéns Michael, você deu a volta por cima, vá em frente com a certeza de que alegrias e tristezas são farinha do mesmo saco - este saco cheio de surpresas que é o futebol e, por extensão, a vida.

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