Neste
momento,
em algum
lugar do
planeta,
tem alguém
jogando
ou batendo
uma bola

  Ao pensar num assunto para ser o ponta-pé inicial desta coluna que vai estar aqui todas as quartas-feiras, imediatamente me veio à cabeça uma bola de futebol - esta corruptora de menores com a qual me amiguei ainda criança e da qual nunca mais separei, embora viva lhe dando chutes até hoje.
  Buscando mais entrosamento com a redonda, de saída fiquei sabendo que, por cerca de 380 mil anos, uma quente e densa ‘‘bola de fogo primordial’’ rolou pelos campos celestiais após o grande espetáculo do ‘‘bigue-bangue’’ - teoria que busca explicar a origem do universo a partir de uma explosão que teria ocorrido há mais de 13 bilhões de anos.
  Sem querer troçar com os cientistas, acho que só Deus pode confirmar tal teoria, mas, como Deus não responde aos ataques e nem entra de sola nos adversários que querem tirar-lhe o título de ‘‘Criador do Universo’’, eu é que não vou defendê-lo, mesmo porque, assim que li sobre essa quase mitológica ‘‘bola de fogo primordial’’, pensei cá comigo: ‘‘Ah, acho que foi por isso que o mundo virou uma bola... De futebol!’’
  A bola é onipresente. Neste momento, em algum lugar do planeta, tem alguém jogando ou batendo uma bola. A bola é poderosa, movimenta bilhões de dólares por ano; para vê-la rolar nos pés dos jogadores, milhões de pessoas lotam os estádios ou ficam grudadas na frente da TV, além daquelas que vibram nas ondas do rádio.
  E, se soberana nos mais requintados estádios, democrática, a bola também reina nos campos e terrenos baldios das periferias das cidades e zona rural, às vezes como única atividade de lazer. Usando uma linguagem libidinosa, a bola é amada, desejada e possuída nas mais variadas posições. Seja na defesa ou na linha de frente, atacando pela esquerda ou pela direita, ou ainda entrando pelo meio - a bola se movimenta e sente prazer em qualquer posição.
  Ambivalente, a bola, feito garota dengosa, gosta de ser tratada com classe, tocada suavemente; tal mulher de malandro, não chia quando apanha de um grosso e nem foge dos furões, embora costume pregar peças humilhantes naqueles que pisam na bola, normalmente fazendo-os esborrachar no chão para delírio da torcida - esta fiel cúmplice que não abandona seu time nem quando a bola deste está furada. Quem não se lembra da torcida do Londrina, no último Campeonato Paranaense, quase lotando o Estádio do Café para ver um time que não dava pelota para o bom futebol?
  Masoquista, a bola de futebol gosta mesmo é de ser chutada. E tanto pode ser com força, ou devagar; colocada ou com efeito; de trivela ou de sem-pulo; de bicudo ou chaleira; de voleio ou bicicleta...Ela suporta tudo. Só não gosta de duas coisas na vida: ser chutada para fora ou agarrada pelo goleiro - esse invejoso que não tolera ver a glória alheia e que vive pegando-a, pela frente ou pelo rabo, sempre que está prestes a gozar as delícias do gol.
  Se detesta as pegadas do goleiro, a bola não se importa de ser agarrada, abraçada e beijada pelo seu amado: o artilheiro. É com ele que ela vai ao êxtase, ao orgasmo total dessa relação que, como qualquer outra, pode começar das mais diversas maneiras, por exemplo, com aquela matada jeitosa e elegante que só os craques conhecem; ela também fica toda cheia quando é amortecida no peito ou amaciada na coxa; é ainda chegada num lençol ou chapéu, não para cobrir, mas para exibir toda a plasticidade dessa relação que pode culminar com a bola no meio das pernas - intimidade para poucos, humilhação para muitos.
  Muitas são as maneiras de se chegar numa bola, porém, um lance mais ousado pode conquistá-la no primeiro toque, no primeiro encontro. No entanto, quando falta ousadia, a bola, que só falta rastejar frente aos craques, não hesita em se atirar aos pés do primeiro ‘‘pereba’’ que aparece pela frente. É sua sina: bola que é bola dá bola pra qualquer um, até para quem não é lá muito bom de bola ou da bola.
  A bola é, por natureza, irrequieta e, a exemplo de uma garota de programa, não escolhe parceiros para rolar na grama. Desde que não seja, claro, o goleiro, esse estraga prazer que vive impedindo-a de estufar a rede e gozar este momento mágico, às vezes contraditório, em que ela tanto pode receber o chute raivoso de um defensor possesso, quanto encher a barriga de um ‘‘boleiro’’ a correr feliz, comemorando o filho que nasceu ou vai nascer.
  Esta é a bola. E se você correu atrás dela até aqui, isso significa que você correspondeu ao meu toque de letra. Sendo assim, trocando as bolas, como anda aquele emocionante embate entre a bem treinada equipe do Gaeco/Ministério Público e o desfalcado time da Câmara Municipal de Londrina que teve cinco dos seus principais jogadores expulsos por falta de vergonha e agressão contra a moralidade pública?
  Ao que parece, a Câmara equilibrou o jogo e o homem da mala preta não foi visto mais por lá. Mas é preciso continuar com marcação cerrada em alguns, pois, do contrário, vamos continuar levando bola pelas costas ou, pior, dando bola para jogadores mesmo estando eles em completo impedimento, você não acha? Se não acha, eu acho, ora bolas!

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