Respeito é bom e evita que jogadores mal-educados tirem mais cedo as chuteiras de campo para ir lavar a boca com sabão no vestiário. No gramado, elas é que mandam - e que nenhum marmanjo se atreva a dizer palavrão. O som agudo do apito ou ameaça de cartão vermelho costuma deixar mansinhos até zagueirões mais sarados. Só que, se naquele território dá para segurar os maus modos dos 11 titulares, reservas, técnicos e assessores, nas arquibancadas o xingamento fica fora de controle.
Se Estatuto do Torcedor não prevê esparadrapo para ser colocado na boca dos malcriados, e a polícia está mais preocupada com as encrencas armadas pelas torcidas nas arquibancadas, o que fazem juízas e auxiliares diante do coro de palavrões que são obrigadas a escutar? Nada. Os adeptos da linguagem das borracharias gastam saliva à toa.
''Nem ligo'', garante a árbitra Sílvia Regina de Oliveira, que tem 39 anos e 20 ouvindo tudo que se imagina saia da boca de torcedor de futebol. ''Quem deveria se sentir constrangido é quem fala essas bobagens.''
A auxiliar Ana Paula Silva Oliveira, 25 anos, há sete trabalhando como bandeirinha, também não deixa os desaforos entrarem em casa: ''Faz parte da profissão. Quando comecei, já sabia que ia ouvir barbaridades. Mas escuto ali, morre ali mesmo.''
Se o trio de arbitragem masculino se diz preparado para escutar insultos que lançam suspeitas sobre suas opções sexuais, mães e mulheres, as árbitras e auxiliares escutam novas versões do repertório. E que geralmente dizem respeito a algumas partes de sua anatomia.
Mas, quando se trata de xingamento tirado do ''mundo animal'', os torcedores bocas sujas encontram mais alternativas que aquelas ditas aos colegas de Sílvia Regina e Ana Paula. Se eles são mais lembrados com o nome do bicho que vive saltitando pelas campinas, elas são chamadas - em português bem claro e sem esses eufemismos usados para não ferir a sensibilidade do leitor - de quadrúpedes leiteiras e aves que ciscam nos terreiros.
Foi ou não foi impedimento? Ana Paula, tempos atrás, tem certeza de que levantou a bandeira corretamente em um jogo entre o Palmeiras e o Matonense. Mas a torcida não concordou e, em coro, cerca de 15 mil homens na arquibancada começaram a cantar um refrão de arrepiar os cabelos. ''Naquele momento, fiquei envergonhada'', conta. ''Mas ia fazer o quê? Fui eu quem quis entrar nesse meio.''
As indelicadezas - para dizer o mínimo - também foram o motivo para Ana Paula nem querer ouvir a proposta financeira de uma revista masculina para uma série de fotos, nas quais provavelmente, apareceria segurando apenas a bandeirinha. ''Se fizesse as fotos, não ia mais ter cara para entrar em campo'', diz. ''O constrangimento superaria qualquer xingamento.''

mockup