Aos 82 anos, torcedora-símbolo afirma que bota fé no Tubarão
A torcedora-símbolo do Londrina, Deolinda Francisca Diniz, que ontem completou 82 anos de idade, ainda consegue contar boas histórias do clube. Às vezes, a memória falha, mas ela não se esquece dos bons tempos em que o time era respeitado e ganhava títulos. No entanto, nem a queda para a segundona paranaense a desiludiu - prova de fidelidade.
Deolinda, avó do atacante Aléssio e sogra dos ex-jogadores Chinesinho e Jaú (companheiros de Gauchinho na década de 60), parou de ir aos estádios, mas não desgruda nunca do rádio para ouvir os noticiários. Está sempre ligada ao dia-a-dia que o repórter Tatinha relata na Paiquerê ou aos comentários de Fiori Luiz na Brasil Sul. Se as coisas não andam bem, fica de cara amarrada.
Ela nem gosta que a visitem nos dias de jogos do Tubarão. Quando a bola rola na voz dos locutores, não existe nada que desvie a atenção de Deolinda. Se o Londrina perde, a fantasia desaba. Se ganha, sente uma sensação de alívio e de felicidade. O Londrina é a minha própria vida, resume Deolinda.
É claro que, depois da morte do filho Pedro, companheiro inseparável de Deolinda na hora de comemorar as vitórias, tudo perdeu a graça. Ou melhor, quase tudo - menos o amor pelo Londrina Esporte Clube. Essa é uma paixão que não morre, reforça Deolinda, ao mostrar a foto do time que conquistou o título regional de 92. Ela não se recorda da maioria dos campeões, mas reconhece Alexandre Bianchi, Souza, Márcio Alcâncara e, é lógico, o neto Aléssio, irmão de Jauzinho, que já encerrou a carreira. Dos craques mais antigos, não se esquece de Gauchinho, Adamastor, Beto, Gabiroba e Paulo Vecchio.
A recente dispensa de Alexandre Bianchi, que se submetia a testes no Londrina, deixou Deolinda magoada. O drama do volante - ela leu tudo na Folha - a tocou demais. Acha que os dirigentes o abandonaram e ignoraram as dificuldades de quem precisou vender muitas coisas até para pagar o aluguel. Se eu soubesse onde morava o menino, que tanto honrou nossa camisa, eu teria levado um pouco de comida na casa dele, disse Deolinda, que chorou ao ver a foto em que o filho de Alexandre Bianchi aparece no colo do pai, que acertou contrato com o Iraty. Será que os dirigentes do Londrina perceberam isso? Eles não enxergam que muitos ídolos do passado vivem na miséria. Aqui perto de casa tem um deles que já deu muitas alegrias ao nosso Londrina, mas está aleijado e dorme na calçada no meio de alguns mendigos. Dá pena...
Em uma das recentes crises financeiras do Londrina, Deolinda queria vender feijoada para repassar o dinheiro ao clube. No entanto, os filhos explicaram a ela que não adiantaria nada, que seria preciso juntar muito dinheiro... Mesmo assim, Deolinda acha que se as pessoas dessem um pouquinho aqui, um pouquinho ali, o Londrina teria melhores condições de montar uma forte estrutura. Tenho muita fé no futuro do Londrina. Se Deus quiser, vamos subir de novo.
Deolinda nasceu em Bonsucesso, uma pequena cidade paulista localizada nas imediações de Avaré. Na década de 40, mudou-se para Londrina. O Tubarão virou amor à primeira vista. Viúva de Frutuoso Costa Câmara, ela teve muita garra para criar os filhos e os ensinou o caminho da honestidade. Não nego esmolas. Outro dia, apareceu na minha porta um moço maltrapilho, mas forte e bonito. Disse ao rapaz que ele estava certo. Que é melhor pedir do que roubar...
Ontem à noite, Deolinda não se cansou de apagar dezenas de velinhas colocadas no enorme bolo em cima da mesa. Os filhos Paulo, Diva, Dirce, Darlene, Dalva e Doroti cantaram o Parabéns a Você. Só faltou Pedro, que a imaginação de Deolinda sempre encontra em algum lugar.
Os amigos e os netos - entre eles, Aléssio, Ronaldo (joga no Country), Mauro, o delegado Marcello, Francisco e Eduardo - entraram na alegria do coro. O presente que deram a Deolinda foi apenas um: a camisa do Tubarão.Mario CesarProva de fidelidadeDeolinda Francisca Diniz, 82 anos completados ontem: nem a queda para a segundona a desilidiuNelson Cilo





