Aos 74 anos, morre o ex-técnico Telê Santana
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sexta-feira, 21 de abril de 2006
Antero Greco<br> Agência Estado 
São Paulo - Virou moda, no Brasil, chamar de professor qualquer técnico, mesmo que tenha dirigido apenas quatro ou cinco jogos de equipes juvenis. Mas mestre, daqueles que de fato ensinam, formam jogadores, há poucos. Um dos que mereceram a honraria, o maior de todos nas últimas décadas, foi Telê Santana. Pois o grande mestre do futebol nacional morreu ontem, em Belo Horizonte, aos 74 anos, depois de ficar 28 dias internado no Hospital Felício Rocho.
Telê foi internado por causa de uma infecção no abdômen. Seu estado agravou-se durante o período em que esteve no hospital, com o surgimento de infecção também no pulmão, além de problemas nos rins e no fígado. Depois de uma leve melhora no início da semana, a saúde do ex-técnico piorou progressivamente desde a noite de quarta-feira, quando ele deixou de responder aos medicamentos.
A morte foi constatada às 11h50. A causa, segundo os médicos, foi uma colite isquêmica que evoluiu para falência múltipla de órgãos. Ele estava com a saúde bastante debilitada por um acidente vascular cerebral (derrame) que sofreu em 1996.
Carreira Telê colecionou títulos, cultivou a fama de ranzinza, de perfeccionista e, por conta de seu temperamento, teve também muitos desafetos. Principalmente entre os jogadores. Mas, como acontece com todo mestre, o tempo sempre se encarregou de mostrar que, afinal, estava com a razão e os rebeldes reconheciam a importância de seus conselhos. Foi assim com Jorge Mendonça, Renato Gaúcho, Macedo, Escurinho, alguns craques com os quais teve atritos rumorosos. Cedo ou tarde, admitiram que as broncas eram justas e sensatas.
Telê justificou, ao longo da vida, o apelido de Fio de Esperança que lhe foi dado pelo cronista Nelson Rodrigues, nos anos 50, quando era aplicado ponta-direita do Fluminense, seu time de coração. Franzino, obstinado, dedicado ao clube, o mineiro que nasceu em 26 de julho de 1931 em Itabirito servia de exemplo para companheiros. Solidário, correto com os rivais, ganhava com facilidade a confiança de treinadores, a simpatia das arquibancadas. Foi assim depois como técnico: levava esperança aos clubes.
A fidelidade ao Fluminense, dentro de campo, se estendeu por mais de uma década e lhe rendeu dois títulos cariocas (51 e 60) e um Torneio Rio-São Paulo (59). No começo dos anos 60, antes de encerrar carreira, ainda passou por Guarani, Madureira e Vasco. Depois de pendurar as chuteiras, foi nas Laranjeiras que começou a carreira de treinador, que lhe deu fama e o levou a comandar a seleção brasileira em dois Mundiais (82 e 86).
Telê começou por baixo, como era comum na época, ao dirigir os juvenis do Fluminense em 1967, com os quais ganhou o título estadual da categoria. No ano seguinte, repetiu a dose com os juniores. O talento para formar atletas já era de veterano, a ponto de chamar a atenção dos cartolas, que o promoveram para guiar o time principal. Não se arrependeram: a equipe foi campeã do Rio em 1969.
Bastou para o nome de Telê correr o País. O Atlético Mineiro o convidou para voltar para casa e lhe deu a incumbência de armar o time para o torneio doméstico. Resultado? Galo campeão estadual em 1970 e primeiro campeão brasileiro, em 1971, na fórmula então criada pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (hoje CBF).
Telê teve passagem rápida pelo São Paulo em 73, perambulou por alguns clubes até firmar-se no Grêmio, em 77. Na época, teve a proeza de quebrar hegemonia do Inter, ao conquistar o troféu gaúcho e consolidar a fama de disciplinador e defensor obstinado do fair-play, do jogo limpo. Futebol é arte, é diversão, costumava dizer.
A trajetória de Telê deu guinada radical em 1979, quando aceitou proposta de treinar o Palmeiras. Com um elenco composto por jogadores experientes (como Beto Fuscão, Jorge Mendonça, Polozi) e jovens (Pedrinho, Baroninho, Pires, Mococa, Jorginho), criou uma equipe que encantou o Brasil, dava espetáculo, aplicou surra histórica de 4 a 1 no Flamengo, no Maracanã, mas caiu nas semifinais do Brasileiro diante do Inter. Aquele Palestra revolucionário foi decisivo para que Giulite Coutinho, então recém-eleito para a CBF, o chamasse para a seleção brasileira.
Durante dois anos e meio, Telê formou uma das mais famosas equipes que o Brasil levou a Mundiais e que deixou saudades, ao perder por 3 a 2 para a Itália, em 5 de julho de 82. Telê teve nova chance quatro anos depois, no México, e o Brasil foi desclassificado pela França, nos pênaltis, nas quartas-de-final.
Difundiu-se a fama de pé-frio, que só desapareceu de vez no começo dos anos 90, com série impecável de títulos que conquistou com o São Paulo os mais importantes foram o bicampeonato da Libertadores e do Mundial Interclubes, em 92 e em 93.
A carreira de Telê foi truncada em janeiro de 1996, ao sofrer aneurisma. A doença fez com que se afastasse, e um ano depois ainda ensaiou o retorno, para atuar como diretor-técnico do Palmeiras, na era Parmalat. A saúde frágil, porém, impediu de levar o projeto adiante.
Telê definitivamente voltou para Belo Horizonte, para ficar cercado pelo carinho da mulher Ivonete, os filhos Renê e Sandra, e quatro netos. O mestre recolheu-se, mas ficaram lições de dignidade, lealdade e eficiência.


