Antigos rivais viram dupla para classe mais radical da vela em Tóquio


KLAUS RICHMOND
KLAUS RICHMOND

SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Os velejadores Samuel Albrecht, 39, e Gabriela Nicolino, 31, não esquecem de uma experiência vivida nos 100 metros finais do Troféu Princesa Sofia, tradicional regata que ocorre anualmente em Palma de Mallorca, na Espanha, em 7 de abril de 2019.

Ao ver o barco virar, na tentativa de uma rápida retomada, o gaúcho teve o dedo indicador da mão direita guilhotinado pelo leme, sofrendo uma fratura exposta na falange. Precisou passar por cirurgia de emergência.

"Assim que subi no barco meu dedo ficou pendurado e com o osso para fora", conta à reportagem.

"Na hora ficamos chateados, tristes por tanto esforço perdido e começamos a ver os riscos que corremos. Já não sou mais garoto, tenho família, filhos, e quando a gente veleja é difícil controlar a sensação de que estamos fazendo algo perigoso. Vem o medo, também, mas lembramos que é isso que nos mantém vivos", completa.

Gabriela viveu uma prova pessoal semelhante. Anos atrás, deparava-se com uma encruzilhada sobre se dedicar integralmente à carreira no esporte, ainda sem resultados tão empolgantes, ou deixá-la de lado. Paralelamente, ela havia cursado publicidade e concluído um mestrado.

"Eu tive que fazer a minha escolha. Largar ou seguir um trabalho tradicional? Havia medo, claro, mas nesse momento notei que já tinha uma carreira, participava de seletivas olímpicas. Fui incentivada a continuar", conta.

"Contei muito com apoio das Forças Armadas [da qual foi atleta] e de incentivos. Sempre balançamos sobre continuar."

Forjados por superações e juntos desde 2018, por incentivo da CBVela (Confederação Brasileira de Vela), após anos competindo como rivais, Samuel e Gabriela são esperança de medalha do país na Nacra 17, prova caçula nas classes olímpicas e, também, considerada uma das mais radicais.

Diferente de outras tradicionais competições desse esporte, que superam com folga uma hora de duração, as regatas da Nacra são embaladas por provas mais curtas e barcos que, literalmente, voam sobre a água, atingindo velocidade de até 50 quilômetros por hora. É a única modalidade da vela olímpica que permite duplas mistas.

O barco é do tipo catamarã, tem três velas e pesa cerca de 142 kg. O mastro e o casco duplo são feitos de fibra de carbono, o que impulsiona ainda mais a velocidade. O 17 se refere ao número de pés, o comprimento da embarcação.

"É tudo manual, nada é automatizado na Nacra. Houve o desenvolvimento sobre as velas, o 'foil' em fibra de carbono, mas tudo segue mecânico. Nós operamos, regulamos, é uma competição extremamente física", explica Gabriela.

A junção de estilos parece ter sido perfeita. Se Samuel tinha no currículo a disputa de duas olimpíadas, em Pequim-2008 e no Rio-2016 -ao lado de Isabel Swan, já na classe Nacra- encontrou em Gabriela a motivação pessoal necessária para mais. No último ano, pela primeira vez na carreira, comentou publicamente se sentir em condições reais de disputar uma medalha olímpica.

Desde então, a dupla conquistou rápidos resultados. Um deles, o quinto lugar em Aarhus, na Dinamarca, no mundial da categoria, que a credenciou para Tóquio, além da medalha de prata no mundial de Miami. A lesão de Samuel, em 2019, foi o ponto mais difícil.

"Foram dois meses e meio de recuperação. Tivemos o Pan, e não estava 100%", lembra Samuel. Em Lima, em 2019, eles conquistaram a medalha de bronze.

Em 2020, em meio ao cenário de pandemia, a dupla utilizou o tempo disponível para trabalhar nos bastidores. Procurou por patrocinadores, por meios de viabilizar materiais para treinamentos e tratou de burocracias inviáveis em meio a rotina intensa de viagens e treinamentos. Curiosamente, acertou contratos com três empresas.

"A campanha é toda bem complexa, requer organizar calendário, planificar tudo, entender o que precisamos de material. Temos barco no Japão e na Europa, por exemplo. Fora a parte financeira, em que pagamos o nosso treinador, corremos atrás de empresas para projetos, patrocínio, fornecemos documentos, falamos com confederações, clubes...", explica Samuel.

Durante a pandemia, os dois ficaram por quase três meses realizando trabalhos individuais à distância: Samuel, no Sul, e Gabriela, no Rio de Janeiro. No retorno, passaram a se reunir mensalmente por cerca de 15 dias no Rio de Janeiro para trabalhos na água.

Isso permitiu a dupla sonhar ainda mais com bons resultados na primeira e única competição oficial disputada até aqui, em janeiro, quando conquistaram a etapa de Miami do US Open Series da US Sailing, vencendo seis de oito regatas disputadas.

"O resultado mostrou que temos chances. No vento fraco éramos muito bons, agora temos rivais emparelhados. Acho que hoje há dez barcos com boas chances de medalhas. É uma classe de altíssimo nível, com campeões que migraram para ela", conta Samuel.

"O melhor parâmetro que há, claro, são os barcos do lado. Aprimoramos caminhos, sentimos o barco e tivemos esse retorno. Não é só o mais rápido que vence, são os que aproveitam as melhores rajadas de ventos. E trabalhamos isso", acrescenta.

No início de maio, a dupla rumou para Santander, na Espanha, para período de treinamentos. Veio ao Brasil, mas já retornou à Europa, para a preparação final antes do embarque em definitivo para o Japão, no próximo dia 7.

Inspirados por 18 medalhas da vela no histórico olímpico -7 de ouro, 3 de prata e 8 de bronze- eles querem viver em Tóquio, enfim, a consagração, após medos e dificuldades deixadas para trás.

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