Ao invés de stock cars, fuscas e protótipos, o Autódromo Ayrton Senna foi tomado ontem por carrinhos charmosos que marcaram época no País nos anos 60 e 70. Dezenove deles desembarcaram em Londrina para uma etapa do Campeonato Paulista de Superclassic, que veio para o autódromo paranaense porque o de Interlagos está passando por obras.
Na pista, somente carros fabricados até 1976, como os nacionais Karmann-Ghia, Corcel, Puma, Passat, Dodge Polara, Fiat 147 e um simpático ''Ze do Caixão'', como era chamado o VW Sedan 1.600. ''Esse carro era muito usado nos anos 70 pelos taxistas, por ser um dos poucos que vinha original de fábrica com quatro portas'', recordou o aposentado Artele Marinelli, de 78 anos, que veio de Cambé para matar a saudade dos carros daquela época romântica.
Também desfilaram pelo circuito alguns importados, como uma BMW 2002 Ti, quatro cilindros, fabricada em 1970, dois Porsche Spyder, um Fiat Topolino 1938 e algumas raridades, como um DKW Belcar e um FNM ''JK'' - carro parecido com Willys Itamaraty, lançado na época da inauguração de Brasília em homenagem ao presidente Juscelino Kubitscheck.
Quem optou por retardar o almoço para conferir essas baratinhas correndo na pista com certeza não se arrependeu. Pelo contrário; vibrou com o ronco dos motores que persistem em continuar funcionando.
Alguns dos carros, é importante ressaltar, não levam mais o motor original, que fundiu há um certo tempo. Mas por fora guardam todas as características do modelo que deixou saudades. É o caso da BMW que ganhou a corrida, pilotada pelo paulistano Evaldo Luque. ''Tive que colocar nela um motor AP 2.0 da Volkswagen, que é equivalente ao dessa BMW. Mas admiro os que ainda estão com o motor do próprio modelo'', afirmou Luque, que lidera o campeonato na categoria III (carros até 2.000 cc), com quatro vitórias.
Enquanto passavam pela reta dos boxes, os ''vovôs'' da velocidade arrancavam elogios do músico José Carlos Rodrigues, de 50 anos, que é paulistano, mas mora em Londrina há nove anos. ''Não podia perder esssa oportunidade de ver esses carros que são da minha época de garoto. Lembro, por exemplo, de quando foi lançado o Corcel, em 1969. Nos primeiros anos ele vinha com um motor Renault 1.100 cc argentino'', detalhou.
Outro que era só suspiros ao ver em ação um DKW fabricado nos anos 60 era o cambeense Arlete Marinelli. ''Esse carro era a minha paixão. Comprei um primeiro DKW Belcar aos 35 anos e depois tive outros cinco. Quem se dá bem com DKW não troca por outro carro'', garantiu. Marinelli conta com orgulho que o seu primeiro Belcar levou sem nenhuma quebra toda a família (sete pessoas) até Santos. ''Isso era pouco comum na época. No caminho víamos outros carros mais novos parando por problemas no radiador ou por causa de fumaça. O nosso foi e voltou sem uma parada sequer'', frisou.
Depois dos Belcar (o modelo Sedan da DKW), Marinelli teve duas peruas Vemaguet e dois Fissori. ''É uma judiação ter acabado esse carro. Não dava manutenção e era muito econômico. Só que com a chegada do Fusca ele perdeu espaço'', lamentou. Ao final da corrida, Marinelli fez questão de ir ao box cumprimentar o piloto e jornalista Flávio Gomes, do carro 96, outro amante dos DKWs.
Gomes contou que tem sete modelos da marca em sua casa, em São Paulo: ''Ando com eles normalmente pela cidade, cada dia saio com um''. O jornalista disse que sua paixão pelo DKW surgiu quando seu pai lhe deu duas miniaturas do carro na infância, as quais guarda com carinho até hoje.

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