Desde criança, Walter Ney sonhava ser atleta. Como a grande maioria dos meninos no Brasil, a primeira paixão foi a bola de futebol. Aos 13 anos, iniciou os treinos numa escolinha da Prefeitura de Londrina, que era administrada pelo ex-goleiro do Londrina, Zeferino Pasquini. Quase que simultaneamente, o garoto foi tomando gosto também pelo atletismo, incentivado por alguns professores que viam nele o talento para a modalidade.
Mas quis o destino que o menino pobre, nascido no sertão baiano e que veio para o Norte do Paraná aos dois anos, no colo da mãe, escolhesse entre o esporte e o trabalho para ajudar no sustento da casa. Sem a garantia de que poderia sobreviver como atleta, foi obrigado a optar pelo trabalho. Estudioso, se dedicou e foi aprovado no concurso para a Polícia Federal.
Foram 30 anos de serviços prestados ao governo, tempo incapaz de diminuir a paixão pelo esporte, que continuou viva. Tão forte, que voltou com tudo depois que ele se aposentou, há sete anos. Era hora de reativar o grande sonho de jovem. Então, ele descobriu o atletismo máster em uma matéria da Folha de São Paulo e não teve dúvidas.
"Sempre gostei muito de esportes, e mesmo enquanto estava na Polícia, continuava praticando. Morei um tempo em Paranaguá e jogava futebol de areia. Aí depois que me aposentei conheci o atletismo máster e comecei", conta.
E aos poucos, ele vai mostrando que não faria feio se tivesse tido a oportunidade lá atrás de fazer carreira no esporte. Desde 2006, quando se aposentou, Ney já faturou mais de 80 medalhas e participou de cinco campeonatos mundiais, sendo quatro do tradicional Jogos Mundiais de Policiais e Bombeiros, e uma do Mundial de Atletismo para atletas másters.
No último deles, realizado entre os dias 1º e 10 deste mês, na Irlanda do Norte, ele se tornou tricampeão mundial no saldo em distância, e venceu também o salto triplo e o revezamento 4 x 100 metros com a equipe brasileira. Ainda ganhou prata nos 100 metros com barreiras e bronze nos 100 metros rasos.
Para quem viveu tantos anos sonhando com isso, os resultados vão muito além dos pódios. "Para quem é apaixonado por esportes, só de estar lá é a realização de um sonho. A gente prova que não tem esse negócio de idade. O esporte é um agente agregador, de compartilhamento de alegria, tem que ser um estímulo para a vida", frisa.
E Ney sentiu isso na pele. Foi também através do esporte que ele conseguiu forças para superar traumas pessoais. "Perdi dois irmãos recentemente, um deles é praticamente um filho para mim. Num momento desse a gente pensa em parar, quase desisti de ir ao Sul-Americano ano passado, mas comecei a treinar mais forte e, graças ao esporte, a gente vai se fortalecendo. O esporte é tudo para mim, é o que me dá energia", relembra, já com os olhos marejados.
Hoje, ele leva a vida de um atleta e vê realizado o sonho de criança. E torce para que outras pessoas se inspirem a tomar o mesmo caminho. "O esporte não é só resultado, claro que a gente tem os nossos objetivos traçados, mas não é só isso. Às vezes, se você chega em quinto, mas fez seu melhor tempo, já valeu. Na verdade, a qualidade de vida vem em primeiro lugar", reforça ele. "Hoje estou com 56 anos e me sinto um garoto".
Walter Ney tem o apoio de GMtex Confecções, Iate Clube de Londrina, Sindicato dos Policiais Federais no Estado do Paraná (Sinpef) e Borrachas Guaporé.

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