Animal em extinção vira símbolo da Copa América
ReproduçãoO taguá, típico do chaco paraguaio: animal mantém características muito semelhantes a de seus antepassados pré-históricos
Animal em extinção vira símbolo da Copa América
Paulo Briguet
Enviado da Folha
Melquíades Melgarejo, 22 anos, joga no ataque e sonha em ser profissional do futebol. Mas foi com as mãos, e não com os pés, que ele deixou sua marca histórica na Copa América. O ilustrador do jornal Notícias, de Assunção, venceu o concurso para a escolha do mascote da competição.
O taguá foi eleito como símbolo da Copa América em dezembro de 98. Nesse campeonato de mascotes, o bicho driblou 124 concorrentes e deu olé em vasta fauna. Melquí recebeu 20 milhões de guaranis como prêmio pelo desenho. (Não se espante: são R$ 1,1 mil.)
Íntimo da bola e do pincel, Melquí sabe: para fazer um belo gol ou um belo desenho, é preciso ter criatividade. O ilustrador revelou visão de jogo e boa colocação ao desenhar um animal pouco conhecido, mas importante. O taguá é um autêntico símbolo ecológico do Paraguai.
- Os paraguaios ainda não o conhecem muito bem, mas agora vão conhecer - garante o ilustrador, com quem a Folha conversou por telefone.
Até 1972, acreditava-se que o taguá estava extinto 15 mil anos atrás. A espécie só era conhecida por fósseis. Mas, naquele ano, alguns exemplares vivos foram localizados pelo zoólogo norte-americano Ralph Wetzel na região do Chaco paraguaio. A descoberta foi surpreendente: o taguá é praticamente um fóssil vivo, mantendo características muito semelhantes às dos antepassados pré-históricos. Mesmo em condições adversas, o animal conseguiu sobreviver até os dias atuais. Seu nome científico é Catagonus wagneri.
O taguá foi um dos últimos mamíferos descobertos pela ciência. Ele é um porco-do-mato; pertence à família dos catetos ou queixadas. O animal vive nas áreas mais secas do Chaco, tem hábitos diurnos e alimenta-se de raízes e cactos. Os taguás podem pesar até 45 quilos e medir 90 centímetros. Vivem em grupos de três a seis indivíduos.
A pesquisadora Cristina Margarida, da Universidade Federal do Paraná, é especialista na família das queixadas. Ela diz que a escolha do taguá como símbolo da Copa América foi uma boa surpresa:
- Sempre que uma espécie se torna bandeira, é importante para a consciência ecológica.
Cristina Margarida explica que o taguá corre maior risco de extinção por ser endêmico, ou seja, viver numa área restrita. Habitando somente a região seca do Chaco, na fronteira com a Bolívia, a pequena população dos taguás está mais vulnerável à ação do predador-homem.
Para Cristina, é surpreendente que um porco-do-mato tenha sido escolhido como símbolo da Copa. Geralmente, as queixadas são preteridas em favor de onças pintadas, lobos guarás e outros bichos que costumam dar mais ibope.
Com todo significado ecológico do mascote, o ilustrador Melquí orgulha-se do símbolo que criou para a Copa. Ele diz:
- O taguá vai representar o nosso país para o mundo.
Melquí trabalha no jornal Notícias, da capital paraguaia, há um ano. Estuda artes plásticas, publica charges e assina uma tira de quadrinhos diária. Mas sua grande paixão - revela - é o futebol:
- De alguma forma, já escrevi meu nome na história do esporte quando desenhei o taguá. Mas agora quero me destacar jogando futebol mesmo.
Melquí morava até o ano passado na pequena cidade de Concepción, onde era atacante do time local. Assim que tiver chance, o ilustrador não vai pensar duas vezes antes de calçar as chuteiras. Pretende mostrar que é tão bom na grande área quanto no papel. Fã de Gamarra (É o melhor zagueiro do mundo) e de Romário, o ilustrador diz ter estilo de jogo semelhante ao da atacante Salas, do Chile.
Como o taguá, que venceu concorrentes mais cotados, Melquí quer driblar as defesas adversárias, enganar os predadores e chegar à glória do futebol. Seu sonho é ser um grande atacante, ovacionado pela multidão no Estádio Defensores del Chaco.
Enquanto isso, lá no Chaco, o taguá continuará defendendo a sobrevivência da espécie.





