Rio - Um ano depois de ter sido campeão brasileiro pelo Flamengo e eleito o melhor técnico da competição, Andrade viveu o outro lado da moeda: assumiu o Brasiliense em situação delicada na tabela de classificação, depois de ficar cinco meses desempregado, e não evitou o rebaixamento do time para a Série C do Campeonato Brasileiro. Foi dispensado no fim da última temporada e está à procura de um clube.
''Fiquei triste (com a queda do Brasiliense), mas sempre se ganha alguma coisa. Às vezes, os resultados adversos lhe dão mais amadurecimento do que as vitórias. As vitórias enganam também'', disse, em entrevista à Agência Estado. Na época de jogador, Andrade nunca precisou de empresário. Agora, como treinador, sentiu necessidade. ''Nesse meio, não precisa ser tão qualificado, tão competente, vale mais ter alguém que o indique''.
Em dezembro, ele firmou acordo com Cláudio Guadagno e Fábio Luciano para representá-lo e, quem sabe, facilitar a sua vida no mercado. ''Não quero entrar numa furada. Assim, evita desgastar a imagem. O melhor é aguardar do que pegar qualquer coisa (time)''.
Agência Estado - Está negociando com algum clube?
Andrade - Conversei com o Duque de Caxias (time de menor expressão do Rio de Janeiro), mas a negociação não foi para frente. Depois disso, não recebi nenhum contato. Estou aguardando convite.
AE - Fica ansioso para voltar a trabalhar?
Andrade - No momento, eu tenho de ter calma, paciência para não entrar numa furada. Assim, evita desgastar a imagem. O melhor é aguardar do que pegar qualquer coisa.
AE - O ideal é assumir um time no início de temporada?
Andrade - Sim. Passei por essa experiência no Brasiliense, no ano passado, e percebi que pegar uma equipe no meio da competição é complicado, muito complicado. Cheguei lá e encontrei um grupo meio desmotivado, mal fisicamente e com padrão definido de jogo. Aí é preciso fazer mudanças, dar condicionamento físico e padrão de jogo ao time e, muitas vezes, não há tempo para isso. O melhor é montar a equipe do jeito que você deseja.
AE - Arrepende-se de ter aceitado o convite do Brasiliense?
Andrade - Não me arrependo. Foi uma boa experiência.
AE - Como é num ano ser campeão brasileiro pelo Flamengo e no outro terminar rebaixado para a Série C do Brasileirão?
Andrade - São duas situações diferentes. Em 2009, eu estava num time grande, de massa e no ano seguinte assumi um time (o Brasiliense) que disputava a segunda divisão do Brasileiro, num clube que não tem a dimensão do Flamengo. Fiquei triste (com a queda do time do Distrito Federal), mas sempre se ganha alguma coisa. Às vezes, os resultados adversos lhe dão mais amadurecimento do que as vitórias. As vitórias enganam também.
AE - O descenso com o Brasiliense pode atrapalhá-lo a voltar para um clube de ponta do futebol brasileiro?
Andrade - Isso é bobagem. Fui campeão brasileiro com o Flamengo depois de 17 anos (de jejum) e essa conquista não me ajudou muito no início, não foi um ponto a favor. Além de mim, no ano passado, caíram mais sete treinadores, três da Série B e quatro da Série A, e muitos estão aí trabalhando. O futebol é muito dinâmico.
AE - Normalmente, um técnico campeão nacional valoriza-se demais no mercado. Após ganhar o Brasileirão, você aguardou um bom tempo até acertar com o Brasiliense. Você ainda busca explicações para isso ter ocorrido?
Andrade - Houve algumas colocações maldosas em relação ao meu trabalho (a diretoria rubro-negra alegou falta de comando para demitir Andrade em abril de 2010). Isso me atrapalhou bastante no mercado.
AE - É importante para o treinador ter empresário?
Andrade - Nunca trabalhei com empresário. Mas, agora, vou trabalhar com (os empresários) Cláudio Guadagno e Fábio Luciano. Fechei com eles há cerca de um mês. Já conhecia o (ex-zagueiro) Fábio Luciano, trabalhei com ele no Flamengo e nos damos bem. É uma pessoa íntegra. Notei que (na função de técnico) é importantíssimo ter empresário. Nesse meio, não precisa ser tão qualificado, tão competente, vale mais ter alguém que o indique.
AE - Zico e Júnior, na função de dirigente, e você, como treinador, não ficaram o tempo que queriam na Gávea. O que acontece no Flamengo que não poupa ídolos como vocês?
Andrade - Viemos de uma outra época. Temos outra forma de trabalhar. Talvez isso tenha dificultado nossa permanência no Flamengo. Hoje as coisas mudaram muito.
AE - O que mudou?
Andrade - A relação com o jogador mudou. Virou um mercado. Além disso, não se trabalha mais com o amor que se tinha ao clube antigamente. Hoje, não existe mais isso, entende? Primeiro é o dinheiro, depois o clube. Ainda tenho o conceito de que primeiro é o clube, acima de qualquer coisa. Na minha época, se tivesse que abrir mão pelo clube, tinha que fazer isso. As pessoas não pensam mais assim. Por isso, atualmente, um time como o Flamengo se vê nessas condições, cada dia pior.
AE - O meia argentino Conca foi eleito no ano passado o melhor jogador do Brasileirão. Os conterrâneos D'Alessandro e Montillo também se destacaram. O futebol brasileiro está carente de meias criativos?
Andrade - Existe uma carência muito grande e isso vem das categorias de base. Hoje, os clubes ficam muito preocupados com a parte tática. O futebol brasileiro copiou o europeu e acaba tirando a liberdade do garoto de criar. Temos apenas o Ganso, do Santos, e o Douglas, do Grêmio, como homens de criação. São poucos no mercado brasileiro. O treinador da base, geralmente, prefere o jogador mais brucutu, de força. Acaba não prestigiando o talento e tem de que ser o contrário. O talento é que faz a diferença.

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