Três das cinco principais provas do atletismo deverão ter recordes quebrados em Sydney, segundo projeções feitas pelo estatístico Bernardo Carvalho Lustosa. De acordo com ele, a probabilidade de quebra de recorde olímpico nos 100 metros é de 68,3%. A marca a ser atingida na Austrália deverá ficar em torno de 9s78 – um tempo menor, inclusive, que o atual recorde mundial, de 9s79, em poder do norte-americano Maurice Greene.
O estatístico prevê também que o vencedor da prova dos 400 metros deverá cobrir o percurso em 43s29, igualando o recorde mundial de Harry Reinolds (EUA), que conseguiu a marca em 88. Ficaria, desta maneira, dois centésimos abaixo do recorde olímpico, obtido por Michael Johnson, em Atlanta. A probabilidade de ocorrência de recorde nesta prova é de 59,21%.
De acordo Lustosa, as chances de quebra de recorde olímpico nos 800 metros chegam a 60%. A previsão é a de que o vencedor conquiste a medalha de ouro com o tempo de 1min42s11 – um pouco abaixo do recorde olímpico (1min42s58), mas muito acima do recorde mundial, de Wilson Kipketer (DIN), com 1min41s11, registrado em agosto de 97.
O estatístico adverte, no entanto, que são reduzidas as chances de quebra na prova dos 200 metros (cerca de 35% de probabilidade) e muito pequenas na prova de 1.500. ‘‘Neste último caso, posso até apostar que não haverá quebra de recorde’’, diz Lustosa.
As projeções são resultado de um minucioso levantamento que levou em conta 100 anos de história das Olimpíadas, e das variáveis que levaram atletas aos recordes. O trabalho – que integra um conjunto de três projetos de conclusão do curso de graduação em Estatística, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – constrói um modelo estatístico com os tempos dos atletas campeões olímpicos nestas cinco modalidades, desde 1900.
Lustosa analisou 22 Jogos Olímpicos e, com base no modelo, traçou projeções para Sydney. O modelo foi criado com base no que chamou de ‘‘Regressão Multivariada Múltipla’’ – as variáveis que contribuíram, ou não, para a ocorrência de um recorde. Entre elas, o tipo de pista – terra batida, turfa esmagada (um piso composto por restos de vegetal prensado), carvão moído ou tartan (material sintético).
Além disso, mediu as interferências climáticas, como o vento ou a altitude; o nível de competitividade dos Jogos, a evolução do equipamento usado pelos atletas, o avanço nos métodos de preparação e o regulamento das provas, que eventualmente tenham sido alterados ao longo dos tempos. Para cada variável, Lustosa atribuiu um peso diferente e, com base numa fórmula que ele próprio concebeu, chegou às projeções.
O trabalho, porém, não relaciona favoritos ou atribui chances a um ou outro atleta. O índice de competitividade de uma Olimpíada, por exemplo, é medido por Lustosa com base numa equação que leva em conta o ‘‘Índice de Tradição’’ do esporte no país. Esse índice é obtido pelo número de medalhas de ouro que esse país conseguiu, em cruzamento com o número de participações. ‘‘A soma dos ‘‘Índices de Tradição’’ de cada país resulta no índice de competitividade de cada Olimpíada’’, explica.
De acordo com esse modelo, a Olimpíada de Moscou se mostrou a de menor competitividade até aqui. ‘‘Com o boicote dos Estados Unidos, os tempos obtidos nessas cinco provas foram muito altos’’, lembra Lustosa. Nos Jogos seguintes, em Los Angeles, os tempos baixaram de forma acentuada, apesar do boicote dos países do então bloco socialista. ‘‘A diferença é que o índice de Tradição dos Estados Unidos neste tipo de esporte é muito maior que a dos países da extinta União Soviética.’’
Até 92, os Estados Unidos haviam conseguido 52 medalhas de ouro nas provas estudadas, contra apenas três da URSS. ‘‘Nos Jogos de 68, por exemplo, todos os recordes (100m, 200m, 400m, 800m e 1.500m) foram batidos. E a explicação não é outra senão a altitude’’, acrescenta o estatístico.
As duas últimas – Barcelona e Atlanta – foram as Olimpíadas de maior índice de competitividade, segundo Lustosa, já que todos os países com os mais altos índices de tradição estavam presentes. Lustosa acredita que essas mesmas condições deverão se repetir na Austrália, o que vai tornar a Olimpíada de Sydney ‘‘uma das mais competitivas do século’’.
Com base nas ponderações obtidas com o cruzamento das variáveis, Lustosa estima que os 100 metros deverão ser cobertos em Sydney com o tempo de 9s783. Diz ele que haverá ‘‘um intervalo de confiança’’ que vai variar entre 9s54 e 10s02. ‘‘Há 95% de chance de o atleta campeão realizar um tempo entre o mais baixo e o mais alto.’’
Mineiro de Juiz de Fora, Bernardo Lustosa Carvalho, 23 anos, lembra que ‘‘houve melhora significativa de tempo’’ entre a Olimpíada de 1900 (Paris) e a 1996 (Atlanta). Na prova dos 100 metros, os atletas cumpriram a prova com 91% do tempo de 1900. Em Paris, o vencedor fez os 100 metros em 10s80, enquanto que em Atlanta o tempo caiu para 9s84.
A prova dos 800 metros foi onde os atletas mais evoluíram. Chegaram ao final do século com 84,4% do tempo obtido em 1900. Mais informações sobre o estudo podem ser obtidas no endereço eletrônico [email protected]

mockup