São Paulo, 11 (AE) - Telefonei para o Amyr às 10:15 num domingo de muito sol e ele já se encontrava a 10 milhas da Geórgia do Sul, o endereço do Paratii por três semanas. Uma ligação de primeiro mundo, rápida, cristalina, sem os problemas de "este telefone não existe". Sistema inteligente o Iridium revoluciona a comunicação global individual. Gostei.
Com voz amena, Amyr contou-me os planos de retorno "... quero voltar o mais rápido possível, pois estou morrendo de saudade e acho que já velejei bastante por ora.... quero ficar um pouco com a família em Paraty..."
Nos dias que se seguiram a voz amena acusou ansiedade crescente, estridente, como se fosse para anular o barulho do mar castigando o veleiro. Pela enésima vez, uma depressão rondou o Paratii e, diferente das outras vezes, não criou ondas piramidais mas bagunçou tanto o mar que Amyr ficou outras 30 horas sem dormir.
É uma coisa meio chata o retorno ao mar. A gente acaba se acostumando com o chão firme e depois para voltar ao chão que balança é um sofrimento. Bem, cada pessoa reage diferentemente, algumas passam a viagem toda deitadas, outras nem sentem a diferença. No meu caso, os dois dias que sucedem a desamarra no cais são críticos: persiste, sem razão, uma dor de cabeça de fundo, a falta de apetite, o pavio encurtado. E com mar batido, o martelo bate sem parar.... tum tum tum, dentro da cabeça da gente. Haja aspirina...
Mas, em dois dias, que beleza. Integrado ao ambiente, corro, leio, preparo refeições pensando ganhar prêmios de gastronomia, durmo tranquilo e acordo bem disposto em todos os quartos, que é como se chama o plantão de um barco (parece repartição pública, não é?). Realmente é quando começa o prazer da viagem, mesmo com tempo ruim.
Amyr enfrentou a depressão e depois sobreveio a calmaria
aliás, é a regra do jogo e vem desenvolvendo distância média diária percorrida de 180 milhas, faltando ainda 1.400 milhas para aportar. Pode parecer que em 8 dias o navegador cobrirá a distância, mas não é bem assim, com vento contrário no nariz será obrigado a ficar fazendo um zigue-zague cansativo que, no final, representam 110 milhas diárias em linha reta rumo ao alvo fluminense.
Paciência, cada milha tem que ser percorrida, sempre no rumo possível que na maioria das vezes não é o mais desejado ( o mais curto). O Paratii está muito bem, alinhado, arrumado, lavado e passado. Amyr relatou que teve um pequeno problema com a âncora que se soltou do guincho e foi para a água desenrolando
pelo menos, 15 metros de corrente.
"... na tempestade escutei um PAM....PAM....PAM e caramba, o que está acontecendo? Fui para a proa e vi que âncora tinha fugido. Como não dava para ligar o motor do guincho, tive que puxar a corrente com as mãos e consegui trazer quase tudo, mas uns 3 metros ainda se encontram fora amarrados no costado, inclusive a âncora. Arrumo quando puder...".
Em alguns dias Amyr estará entrando em águas calmas e poderá arrumar tudo outra vez. E poderá tomar banho diariamente, e poderá ler à vontade, e poderá inventar lanches, e poderá se bronzear um pouco, num belo domingão que dura uma semana.

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