Amor pelo esporte
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quarta-feira, 30 de março de 2011
Sidney Patriota <br> Especial para a FOLHA 
O currículo impressiona: mestre faixa vermelha e 9º DAN em judô, sendo que atualmente, no Brasil, existem apenas seis pessoas que alcançaram essa graduação. Oito vezes campeão brasileiro, campeão sul-americano e vice-campeão mundial em 1968, em Portugal. E pensar que quando começou a treinar, com apenas cinco anos de idade, Liogi Suzuki, o ''mestre Suzuki'', atualmente com 67 anos de vida e 62 dedicados ao judô, não demonstrava nenhum interesse pelas artes marciais.
A introdução do jovem Suzuki nas artes marciais foi feita por imposição do pai, um excelente praticante da arte ''kendo'', método inspirado nos antigos samurais e que ele trouxera do Japão. A rigidez nos treinamentos era ocasionada pela falta de interesse do próprio Suzuki, o que, conforme ele, muitas vezes levou sua mãe às lágrimas. ''Até hoje não sei se ela chorava mais pela minha 'moleza' ou pela exagerada cobrança do meu pai'', relembra.
Depois de um curto período no kendo, Suzuki começou a treinar judô, modalidade que passou a fazer parte da sua vida. Nascido em Lins, interior de São Paulo, em 1948, a família se mudou para Londrina, onde ele cursou o primário e se formou em técnico em contabilidade. Depois, cursou Ciências Econômicas em Apucarana, já que Londrina, na época, não tinha esse curso.
Adversidades
Relembrando o maior feito da sua carreira, o vice-campeonato mundial em 1968, o mestre disse que as adversidades da época eram muitas. ''Naquele tempo, não existia divisão de categorias por peso. Eu enfrentava atletas maiores do que eu. Também as contusões no judô ocorrem com mais frequência do que nos outros esportes e não havia, na época, métodos de recuperação tão rápidos como os que existem hoje'', explica.
O amor que Suzuki tem pelo judô ainda é maior do que as conquistas que ele alcançou ao longo da sua carreira. ''Um praticante do judô tem que ter humildade, modéstia, tem que saber respeitar a hierarquia e as pessoas mais velhas. Isso são virtudes essenciais'', disse, lembrando que, assim como as demais artes marciais, o judô é feito para autodefesa, não para ser usado como forma de intimidação.
Ele deixou as competições em 1970. Em 1972, ele abriu uma academia para passar seus conhecimentos a outras pessoas. A Suzuki Judô Clube funciona até hoje e atualmente está localizada na Rua Prudente de Morais, 245, em Londrina. ''Costumo cobrar dos meus alunos o que chamo de 'contribuição', algo em torno de R$ 35, somente para ajudar nas despesas da academia, como água, luz e IPTU. Mas se alguém quer treinar e não tem condições de pagar, não tem problema, as portas da academia estão abertas para todos'', salientou.
Valores
Suzuki deu aulas de educação física na Universidade Estadual de Londrina (UEL) por trinta anos. Em 2007 se aposentou e passou a concentrar suas atenções na academia. ''De certo modo, faço uma ação social com crianças, já que quando elas estão aqui não ficam com tempo ocioso. Convido os pais a entrarem e faço questão de conhecê-los, para que saibam que tipo de orientação é dado a seus filhos. O judô ensina valores'', explicou.
Mestre Suzuki é o único membro ainda vivo da comissão que fundou a Federação Paranaense de Judô em 1961. Em 2000, recebeu um diploma de reconhecimento público pelos serviços prestados. Em 2001, outra honraria. Recebeu uma placa de reconhecimento pelos excelentes serviços prestados ao judô no Paraná.
Apenas uma coisa deixa o mestre Suzuki triste. Ele diz que o judô de hoje perdeu o antigo código dos samurais. ''Atualmente, tem praticantes que só querem saber de entrar em competições e faturar pontos, mas se esquecem dos fundamentos. Assim como o futebol, em que o jogador tem que treinar passes, chutes e cabeçadas, o judô também tem seus pontos fundamentais básicos, o que muitos praticantes estão deixando de lado'', criticou.
Nas horas de lazer, além de passar o tempo com seus netos, o mestre toca violão e costuma acompanhar sua esposa em karaokês, cantando músicas na língua dos antepassados que vieram do Japão nos concursos da colônia japonês.
Antes de encerrar a entrevista, mestre Suzuki fez questão de frisar para os praticantes da modalidade o grande lema do judô: ''Se você se empenhar com comprometimento terá seu objetivo''.


