Amigos japoneses se reúnem e ficam divididos
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quarta-feira, 31 de março de 1999
Cláudio Osti 
Pouco antes das sete horas da manhã de ontem não se notava qualquer movimentação diferente em Londrina. Ônibus lotados, gente apressada indo para o trabalho, nem parecia dia de jogo da Seleção Brasileira. A frieza dos torcedores brasileiros com relação à partida entre Brasil e Japão contrastava com os olhos grudados num aparelho de TV em um apartamento na Avenida São Paulo, centro de Londrina.
Eu sou fanática por esportes, né, comentava Kachi Chida que junto com os amigos Katuki Horikawa, Toshikatsu Kussano reuniram-se no apartamento de Fumiko e Rokuro Sugimoto para assistir à partida entre os dois países do coração. Do grupo, apenas Katuki, funcionário aposentado do Banco do Brasil, não nasceu no Japão. Sou londrinense, foi logo dizendo.
Os hinos nacionais dos dois países são executados e a bola começa a rolar do outro lado do mundo. As duas mulheres, Fumiko e Kachi, mais falantes, vão logo demonstrando que conhecem bem o esporte que está encantando os seus parentes lá no Japão. Aquele lá é o Odvan jogador do Vasco né?, comenta Fumiko, referindo-se ao zagueiro que estava fazendo sua segunda partida pela seleção. Ela gosta tanto de futebol que os jogadores chutam lá e ela fica (balança os pés e mostra) chutando aqui, brinca Kachi.
O atacante Amoroso recebe a bola pela esquerda, passa por três adversários e bate. O narrador da TV grita gol e todos na sala, comedidos como manda a tradição japonesa, se entusiasmam com a jogada. Nosso coração é dividido. Nós torcemos pelos dois times. Para a gente é bom, ganhando um ou outro ficamos felizes, disse Fumiko, no início do jogo.
O tempo foi passando e os contidos torcedores de dupla nacionalidade começaram a se soltar e a comentar as jogadas, a maior parte na língua de seus pais, como não tinha legenda igual no cinema, não deu para entender quase nada.
O meia Ito domina a bola faz dois dribles em cima da zaga brasileira e isso é que é bonito, comenta Rokuro. Outro drible e a bola volta para os brasileiros: É um bakataré (bobo) mesmo, disse Kachi.
A bola sobe, passa pelo goleiro Shimoda, e Émerson conclui. Dois a zero Brasil. A imparcialidade dos torcedores começa a pender para o lado mais fraco. Eles jogam um futebol infantil, já os brasileiros mostram ser mais adultos, comenta Fumiko. Na sala todos concordam que os japoneses ainda demonstram inocência quando se trata do jogo da bola.
A partir daí a torcida pelo Japão ficou mais evidente. Eles precisam comer mais feijão, são muito fraquinhos. Olha lá como os brasileiros são mais fortes perto deles, analisa Kachi que juntamente com o marido Rokuro, vibra quando os atacantes japoneses ameaçam o gol de Rogério. Wagner Lopes, o brasileiro naturalizado japonês bate forte, Rogério defende...Por quê pegou? desanimava-se Rokuro com a pouca perspectiva de os atacantes japoneses vencerem Rogério.
Brasil é mais forte mesmo né, comentou Fumiko depois do apito final do árbitro. Só fiquei com medo de o Japão levar uma goleada de cinco ou seis gols, aí não pode, né. Nove horas, todos voltam a seus afazeres e fica a certeza de que para eles o melhor resultado seria mesmo o empate, né.


