Paulo Briguet
Estou lendo ‘Notícias do Planalto’, de Mario Sergio Conti, uma história da imprensa durante o governo Collor. Uma das características interessantes do livro é a grande quantidade de almoços. Os repórteres políticos de Brasília vivem almoçando em restaurantes de luxo com suas poderosas fontes: ministros, governadores, senadores, deputados, empresários e até o presidente.
Pois quer saber? Eu também almoço com as minhas fontes, pô! A diferença é que, em vez de optar por algum restaurante de luxo, vou ao quilo mais próximo. E aqui revelo minha fonte de informação preferida: Praxedes Ribamar, o torcedor de futebol mais exigente do Brasil, talvez do mundo.
Alguns me perguntam por que eu gosto do Praxedes. Era o mesmo que perguntavam quando eu dizia que gostava do Paulo Francis. Praxedes é aquele cara de quem adoramos discordar, e que esnoba das certezas para fazer todo mundo pensar um pouco mais no assunto.
Com a classificação do Brasil para as Olimpíadas, convidei o Praxedes para um almoço no 500 Gramas Service. Meu objetivo era conseguir elementos para um balanço do Pré e uma avaliação das perspectivas da Brasil nas Olimpíadas.
Mal colocou o prato na mesa, Praxedes foi dizendo:
– Briguet, a coisa tá feia. Com o Luxa nós não vamos ganhar nem medalhão de filé na Olimpíada.
– Que é isso, Praxa? Nós estamos entre os favoritos.
– Favoritos? É mais fácil um canguru passar no buraco de uma agulha do que o Brasil voltar com alguma coisa de Sydney. A não ser muamba, claro.
– Ah, Praxedes. Se eu bem me lembro você disse que a Seleção não iria passar pela Argentina e o Uruguai. E passou.
– Mas meu Deus, que ingenuidade, Briguet! Do Uruguai, que tava desclassificado, o time quase tomou uma sova, suou pra empatar. Com a Argentina, não fosse o Alex resolver acordar por dois segundos, o Luxa tinha voltado pra casa com uma goleada. O Alex acordado na hora certa, em jogo decisivo, acontece uma vez por século. Você acha que vai ser a mesma coisa contra Alemanha, Itália, França, Holanda, Nigéria, o escambau? Feliz Olimpíada de 2072!
– Praxedes, a torcida gostou. Tanto que é o Luxa fez até uma poesia pra Londrina.
– Ah, eu podia passar sem essa! Porque ele também não faz a letra de uma marchinha pra próxima campanha do Belinati, hem? Que tal o Ricardo Teixeira na Secretaria da Fazenda? E não pensa que eu perdoei a gente dar a classificação de mão beijada pro Chile. Parece que todo mundo esqueceu o Rojas neste país!
– O Luxa fez mudanças para melhorar o desempenho do time.
– Meu amigo, você tem visto o Galvão Bueno na cidade, com a namorada nova? Pelo jeito sim, porque ele vive soltando essas asneiras. Vou dizer pra você aquilo que já escrevi numa faixa pro Galvão: ‘Vá pentear macaco!’ O Luxa mudou o time porque não tinha outra alternativa, meu filho! Ou mudava, ou botava o Candinho pra jogar. Quem sabe o Jorjão massagista, no lugar do Bilica. A Suzy Fleury, na lateral, que cê acha?
Praxedes deu uma dentada na coxa de frango e prosseguiu em sua argumentação:
– Você por acaso acha que hamburguer é comida? Que Fusca é automóvel? Que pagodeiro é músico? Que Maguila é lutador de boxe? Que Rafael Greca é ministro dos Esportes? Então você também deve acreditar que o Luxa é um bom técnico pra Seleção.
– Quem você colocaria no lugar dele, Praxedes?
– O Raimundinho Peteleco. Ele treinou o Sai da Frente E.C., um time da minha vila. Dava cróqui em jogador que errava passe. Esse Beethoven aí, que ‘fez que foi e acabou não fondo’ pro Flamengo, ele iria tratar na base da bicuda mesmo. Pena que o Raimundinho morreu em 74, de tanta raiva do Zagallo na Copa.
– Nas Olimpíadas, o time vai ter o Rivaldo.
– Ah, o jacu? O desengonçadão? Acho que a Fifa acabou fazendo a tua cabeça, cara. Se o melhorzão do mundo jogou alguma vez na vida, foi em clube. Agora, na Seleção, sem dinheiro na jogada, só pelo ‘espírito olímpico’? Eu tô vendo a viola em caco em Sydney.
Na saída do 500 Gramas Service, Praxedes se despediu de cara amarrada, como sempre, mas comentou:
– Olha, Briguet, pelo menos eu gostei desse restaurante aí.
Virou-se e foi embora, palitando os dentes.
Que diferença do pessoal de Brasília.
E-mail: [email protected]