Alegria e agonia tomam conta das torcidas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de dezembro de 2002
Giovana Kindlein<BR>Reportagem Local 
As mãos não paravam. Passavam nervosas entre os cabelos, quase, quase...faz figa, dizia o corintiano Marcus Augusto Harano, aos filhos Gabriel e João Victor, respectivamente 4 e 5 anos de idade, no Bar Brasil. Sinalizavam palavrões em momentos de raiva, Estou com dó...coisa nenhuma. Quero que eles se f..., admitia outro corintiano, o acadêmico de Administração, Henrique Ramondini, 22, diante do pai santista, o publicitário Marco Antônio Ramondini, no apartamento da Avenida Maringá. E explodiam abertas de alegria como as da marqueteira Fernanda Pirolla, 29, torcedora do Santos desde criança, no Bar Brasil. Londrina quase parou na frente da televisão, ontem à tarde, durante o jogo Corinthians x Santos, o primeiro da final do Campeonato Brasileiro.
Ao contrário da idéia de que futebol é o ópio do povo, assistir ao jogo no apartamento da família Ramondini demonstrou ser um exercício da democracia e do respeito a posicionamentos divergentes. Pai e filho, um em cada lado da sala, não escondiam a paixão pelo time do coração. Um pelo Peixe e outro pelo Alvinegro das Multidões. Vou a São Paulo ver o próximo jogo, insistia o corintiano Henrique. Você vai lá? Que desespero, rebatia o pai santista. A mãe, a palmeirense Aimê, não escondia o lado maternal e torcia pelo time dos três filhos: o Corinthians.
Até hoje, Ramondini não sabe o que aconteceu com os filhos. Não consegui fazer com que torcessem para o Santos. E olha que eu dizia: torçam para qualquer time, menos para o Corinthians, relembrou. Nem as fotos históricas ao lado do rei Pelé e do irmão Marbe Ramondini, que empresariou o rei do futebol, sensibilizaram a prole. Vestido com a jaqueta da Gaviões, Henrique não perdoa. Os santistas são como os fãs do Roberto Carlos, não nascem mais, só morrem, cutucava ele.
As brincadeiras irônicas também vêm do time adversário. Corintiano é igual a pardal. Tem no mundo inteiro, devolveu o torcedor do Peixe, o micro-empresário José Maria da Silva, que tenta de todas as maneiras conquistar o coração do pequeno Wendel, de 3 anos. Já comprei cuequinha, meia e boné do Santos, disse. Isso tudo para evitar que o menino volte a falar Corinthians, quando vê a seleção brasileira na televisão. A mais velha, Tamara, 19, é palmeirense. Pelo menos, argumenta José Maria, os filhos Thalisson e Michael, respectivamente 11 e 8 anos, seguem a sua orientação.
Por outro lado, o maior orgulho para o empresário londrinense Francisco Negri, que ontem estendeu sua bandeira alvinegra na sacada do seu apartamento no 14 º andar, do Edifício Barão do Rio Branco, foi ter homenageado em 1988, o presidente do Corinthians, Vicente Mateus, em um jantar com 800 pessoas no Londrina Country Club. Diferentemente das tiradas que apareciam na imprensa, ele mostrou ser um homem de sabedoria. Fiquei fã dele, revelou Negri. Em outro apartamento, o empresário Dirceu Januário, 59, torcedor de carteirinha do Santos, dividia sua alegria com os quatro netos, o mais velho de 7 anos, corintiano. Feliz com a vitória de seu time, admitiu Não costumo ser perdedor diplomata.


