São Paulo - Quando a bola chutada por Pelé bateu na rede e consumou o milésimo gol, o argentino Edgardo Norberto Andrada socou o chão de tanta raiva. O goleiro do Vasco entrou em campo naquele dia determinado a adiar a festa do Rei e não se conformou por não ter conseguido desviar o chute para escanteio. Mas o tempo foi passando e o sentimento de Andrada foi mudando. Hoje, aos 65 anos, ele considera quase uma dádiva ter levado aquele gol. ''Meu nome vai ficar para sempre na história. E isso é muito bom.''
Sobre o nervosismo de Pelé, Andrada disse que ''ele estava louco para fazer o gol e arrumou aquele pênalti''. ''Jogou a bola na frente e se atirou. Notei que ele estava nervoso na hora em que se afastou para tomar distância. O time inteiro do Santos estava abraçado no meio do campo, longe dele. O Pelé ficou abandonado dentro da área, cercado só por jogadores do Vasco. E o estádio inteiro esperando ele fazer o gol'', lembra Andrada.
Renê - ''Poxa, Pelé, não faz o gol não.'' Até hoje, essas palavras estão na memória do ex-zagueiro Renê, do Vasco, responsável pelo pênalti em Pelé. Vinte e quatro anos depois de ter abandonado a carreira, Renê continua convicto de que não cometeu o pênalti mais famoso da história do futebol.
''Houve um esbarrão, ele caiu e o juiz apitou. Eu me desesperei e disse ao Pelé: Você sabe que não foi, pelo amor de Deus, você sabe, Pelé!' Eu olhava para cima, para os lados e repetia: O que vai ser da minha vida se essa bola entrar?' Quando o gol foi convertido, pensei que estava tudo acabado.''
Desde 1992, Renê, 56 anos, trabalha com jogadores infantis e juvenis do Vasco. É um dos encarregados de selecionar os garotos.
Árbitro - Trinta e cinco anos depois, o juiz Manoel Amaro de Lima, 58, não tem dúvidas do lance do pênalti que originou o milésimo gol. Alguns detalhes foram se perdendo ao longo do tempo, como o nome do zagueiro do Vasco que fez a falta (Renê), mas, numa época em que não existia ''tira-teima'' da televisão, Amaro mantém a convicção.
''Foi pênalti! Eu estava perto do lance. O Pelé invadiu a área e foi calçado pelo zagueiro. Não tive dúvidas de apitar o pênalti. Confesso que não tinha idéia da importância histórica do fato. Isso só percebi muitos anos depois'', diz o árbitro. (A.E.)

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