São Paulo - O bairrismo foi deixado de lado no Estádio Atahualpa em Quito na quarta-feira. Repórteres paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos não entendiam o porquê de Parreira manter em campo Ronaldo, lento e obrigado a respirar no balão de oxigênio no vestiário no intervalo da partida Equador 1 x 0 Brasil pelas Eliminatórias Sul-Americanas. Só aos 36 minutos do segundo tempo, Adriano entrou. Mesmo com pouquíssimo tempo mostrou vigor e bom futebol. Conseguiu até dar um gol para Ronaldo desperdiçar.
No vôo de volta para o Brasil, ficou claro que Parreira enfrentará um dilema em 2005. Como ser fiel aos seus princípios conservadores, fazer justiça e escalar Adriano sem tirar do time os ídolos Kaká, Ronaldinho Gaúcho ou Ronaldo? ''O problema não é meu. Futebol para mim é momento. Quem estiver melhor joga e acabou. Não interessa nome porque prestígio todo mundo tem no seu clube'', resume de forma simples e cruel o atacante da Inter de Milão.
Agência Estado - Você consegue perceber que virou um problema para Parreira? Fiel ao seu esquema tático conservador, ele não tem como te escalar ao lado de Ronaldo, Kaká e Ronaldinho Gaúcho.
Adriano - Isso é bobagem. Muita gente quer nós quatro juntos. Bastaria treinar, arrumar alguns amistosos para provar que é possível. Nós temos talento para atuar sem comprometer o time. Pelo contrário. Juntos seríamos muito fortes.
AE - O Parreira foi o treinador que apostou em você na recente conquista da Copa América. Ele está errado em não escalá-lo como titular?
Adriano - Eu o respeito demais e sou grato na confiança que ele sempre teve em mim. Mas acredito que o meu aprendizado acabou. Estou pronto para poder colaborar mais como titular. Tenho 22 anos, mas jogo como titular da Inter de Milão, um dos times com maior cobrança do mundo, assim como a seleção brasileira. E tenho ido muito bem.
AE - Por falar nisso, como é que a imprensa italiana analisa a sua situação na seleção? De artilheiro do Campeonato Italiano e candidato a melhor jogador de 2004 pela Fifa a mero reserva no Brasil.
Adriano - Sinceramente? Os jornalistas de lá não entendem. Toda vez que volto de uma convocação é a mesma coisa. Sou massacrado pelas mesmas perguntas. Querem saber porque não sou titular, porque jogo tão pouco tempo nas partidas. Eu explico que a decisão é do meu técnico Parreira e tudo bem.
AE - Você acha que ele está certo?
Adriano - Já disse que respeito a sua decisão. Mas não concordo. O problema não é meu. Futebol para mim é momento. Joga quem estiver melhor e acabou. Porque prestígio todo mundo tem no seu clube. Eu vou dar um exemplo do que penso. Na Inter, o Vieri, ídolo dos italianos, é reserva e ponto. No futebol tem que atuar quem rende mais para o time agora.
AE - Você se sente pronto para enfrentar Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho ou Kaká ?
Adriano - Eu não quero enfrentar ninguém. Pelo contrário. Me dou demais com todos na seleção. Simplesmente sei que estou no meu melhor momento. Posso sim buscar um lugar no time sem começar briga com ninguém. Tenho direito de acreditar que posso ser titular e mostrar isso nos treinos e nos jogos da seleção brasileira. É o que estou fazendo. Estou fazendo o meu. Seguindo o meu caminho.
AE - Você nasceu no Flamengo como vê esse péssimo momento do seu ex-clube?
Adriano - Vejo com angústia. O Flamengo não pode cair para a Segunda Divisão. Os jogadores têm de se unir e ganhar de qualquer maneira os jogos que têm pela frente. Eu estou suspenso nesta rodada no Italiano. Se a lei permitisse entraria em campo para jogar contra o Botafogo pelo Flamengo. Temos de ganhar esse clássico e reagir. Eu sou pela ação, pela luta. Minha vida tem sido assim: querer e correr atrás do que deseja. E eu quero uma vaga como titular na seleção.

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