ACIMA DOS ANDES
Do alto cume do Illimani, com seus 6.439 metros de altitude, decolei com meu parapente (versão francesa do paraglider) em meio a um vento forte e turbulento, que me jogou vários metros acima do pico... A vista lá de cima era fascinante: um mar de cumes nevados.
O relato acima é do curitibano Gil Piekarz, escalador e piloto de paraglider, sobre o vôo que estabeleceu o recorde brasileiro de decolagem em altitude. A cada ano surgem mais e mais loucos que inventam e se aventuram em novas experiências radicais. Seja criando novas modalidades ou mesmo mesclando as existentes, em busca de vivenciar o inédito e assistir desde novos ângulos o espetáculo da natureza.
Assim surgiu o pára-montanhismo, uma modalidade que une a escalada de alta montanha com a arte de voar em um paraglider. Imagine o sacrifício de subir durante vários dias uma enorme montanha de gelo, enfrentando condições subumanas, com temperaturas baixíssimas, num supremo esforço físico...
Ao alcançar o cume e deliciar-se com a superação de tamanho desafio, o camarada tem de ir mais longe: descer toda a montanha em um parapente, um vôo sobre uma cordilheira branca e infinita, a Cordilheira dos Andes. As marcas e lembranças do sacrifício da subida ficam esquecidas, como se nunca tivessem acontecido.
Esta aventura reuniu quatro escaladores, os portalegrenses Adair Schizzi e Adriano Formiga e os curitibanos Jorge Cambiazzo e Gil Piekarz este último, o único voador do grupo.
O objetivo da expedição era escalar duas grandes montanhas na Bolívia, o Illimani e o Illampu, ambas com mais de seis mil metros de altitude. Mas a meta pessoal de Gil era clara: decolar de parapente de um destes cumes e voar acima dos 6 mil. O piloto preferiu participar somente da escalada do Illimani, ponto culminante e principal montanha da Cordilheira Real, nos Andes Bolivianos.
Como processo de aclimatação dos brasileiros para aquelas altitudes, a expedição permaneceu alguns dias no Ticaca, o lago navegável mais alto do mundo, a 3.810 metros de altitude, onde Gil arriscou uns vôos sobre a histórica cidade de Copacabana que deu origem à famosa praia carioca.
Precisava sentir como se comportava o equipamento sob a ação do ar rarefeito, a 4 mil metros de altitude - ele justifica.
Voltando a La Paz, resolveram passar por um processo mais apurado de adaptação, acampando aos 4.200 metros no Vale do Condoriri, já na Cordilheira Real, e realizando caminhadas forçadas até o Monte Tarija (5.200 m), em zona glacial.
Prontos para a empreitada, a equipe partiu desde o povoado de Una em direção ao Campo Base do Illimani, que fica a 4.450 metros sobre o nível do mar, alcançando-o após quatro horas de caminhada, vencendo um desnível de mil metros. A expedição ganhou a ajuda de Cecílio, escalador local, que ficou com a tarefa de carregar o parapente até o topo.
Após os quatro dias de subida, passando ainda pelo Campo Alto, Nido dos Condores (5.500 m) e superando algumas gretas e paredes de gelo, os escaladores conseguiram chegar ao cume às 13h30 do quarto dia. Exaustos, descansaram por uma hora e Gil resolveu encarar a decolagem numa plataforma abaixo do topo.
A decolagem foi punk! O vento, entre 15 e 30 km/h, entrava de frente para a rampa. Decolei de uma plataforma de gelo inclinada uns 30 graus, bastante segura, a vinte metros de um abismo. Quando cheguei a ele, já em vôo, o vento me jogou para cima, passando do cume, chacoalhando pacas - conta o aventureiro.
O ar rarefeito, por apresentar menos atritos, fez com que a velocidade do velame (colchão cheio de ar que sustenta o vôo) fosse muito maior do que o esperado.
Avancei bastante para frente, passei por cima do Nido de Condores e fiquei um tempinho rodando, aproveitando umas térmicas (correntes ascendentes de ar quente). Expedições de diversos países do mundo, que se encontravam acampados no Nido, pararam para assistir ao vôo - ele vangloria-se.
Passada a turbulência da montanha, o vôo passou a ser agradável. O visual da cordilheira nevada é fantástico! Foram 45 minutos curtindo confortavelmente sentado a magnífica paisagem. Os dois mil metros de desnível que separam os pontos de decolagem e de pouso, no Campo Base, levaram os outros integrantes da equipe a gastar mais um dia de caminhada.
À noite me enrolei no querido paraca e dormi bem, sob temperaturas negativas, um céu estrelado, repleto de estrelas cadentes - filosofa Gil.





