Acabou a Copa. Agora bate no peito a saudade
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domingo, 12 de julho de 1998
Paulo Briguet 
France PresseLoucura geralExplosão de euforia dos jogadores brasileiros depois da vitória contra a Holanda nos pênaltis: quanta gente no País não pulou exatamente como eles quando Taffarel defendeu a última cobrança? A Copa é uma doce irracionalidade coletivaA Copa acabou. Agora, só daqui a quatro anos. Em 70, cheguei ao mundo um mês atrasado e não pude ver o Brasil tricampeão. Em 74, não estava muito interessado em ver a laranjada mecânica nos canarinhos amarelados. Em 78, senti o sabor plastificado de ser campeão moral, e fui bater bola sozinho na garagem. Em 82, pedi a Deus um terceiro tempo para que a Seleção dos Sonhos do Telê não perdesse, para que o maldito Zoff falhasse ao menos uma vez no Sarriá. Em 86, vi a Seleção dos Sonhos, mais velha e menos brilhante, perder na loteria - e depois tomei um péssimo vinho. Em 90, passamos pela tragicômica aventura de ter Lazaroni como técnico e Collor como presidente. Em 94, trabalhei como repórter na final e uma querida tia morreu bem na hora do jogo. Em 98... vocês viram o que eu vi.
France PresseDepois da batalhaHolandês Seedorf e brasileiro Roberto Carlos: abraço de guerreirosDá um vazio na gente saber que acabou. Duro saber que todos - até mesmo o campeão - voltam para casa depois que a Copa termina (O país-sede, embora já esteja em casa, também volta à rotina). Para os 31 perdedores é pior, mas e daí? Baixa sempre aquela melancolia do dia seguinte, modorra da inevitável segunda-feira do tempo, muxoxo do zero a zero em todo início de semana útil.
France PresseTorcida de saiasNo centro de Paris, uma pelada com os simpáticos fregueses da EscóciaQuatro anos demoram muito a passar. Teremos saudade desses dias que viram feriados na marra, dando ar de profeta ao Raul Seixas que cantava O Dia em que a Terra Parou. Saudade dos dedos roídos e das cervejas esvaziadas nervosamente, dos pulos e socos no ar, dos vizinhos gritando, das buzinas histéricas (Nenhuma saudade dos estúpidos acidentes de trânsito.)
France PresseGesto de pazCob Jones, dos EUA, entrega flores a Bageri, do Irã: um jogo limpoEm 2002 será bom integrar de novo a doce irracionalidade coletiva, que gruda e hipnotiza multidões exaltadas. É gostoso viver naquele clima que faz a gente perguntar: Quanto foi Coréia e Bélgica?
France PressePlaneta redondoE vamos
esperar mais
quatro anos
para que as
nossas cabeças
virem bola,
como aconteceu
às torcidas
brasileira
e francesaÉ, pessoal. Sentiremos saudades de xingar o Zagallo, o mais chato de todos os seres humanos sobre a face da Terra, mas um ser humano que chora e vibra como nós.
Ficam as cenas da Copa. Em quatro anos, as meninas que se abraçaram depois do sufoco contra a Holanda, na praia de Copacabana, estarão alguns centímetros maiores e vão sofrer com a Seleção do mesmo jeito. E quem sabe até lá os hooligans terão se emendado após a desaprovação do mundo inteiro.
France PresseCampo de CopacabanaMeninas
se abraçam
após vitória
do Brasil
na semifinal:
elas e nós
seremos
outros
na próxima
Copa
Antes da odisséia de 2002, haverá um bocado de tempo até que as nossas cabeças virem bolas. Vamos esperar bastante até tirar um sarro daqueles impagáveis escoceses que, além de usarem saia, nunca passaram da primeira fase e são fregueses de carteirinha. Quando teremos um abraço fraterno entre dois recém-saídos do combate, como o holandês Seedorf e o segundo-do-mundo Roberto Carlos? E quando veremos outra vez um americano como Cob Jones entregar flores a um iraniano como Bageri, sem que ninguém satanize ninguém?
Quatro anos duram 48 meses. Mais ou menos 208 semanas. Algo em torno de 1.460 dias. Pensando bem, não é tanto tempo assim. A dobradinha Japão/Coréia vem aí!
France PresseAssim, não!A bestialidade dos
hooligans acabou
sendo a nota triste
da Copa. Baderneiros
ingleses foram
protagonistas
de cenas de
violência nas
cidades da
França e receberam
a desaprovação geral
da torcida, que
queria ver
apenas festa e futebol


