São Paulo - No fim da tarde do dia 11 de janeiro, em Londres, Daniele Hypólito subiu no tablado da Arena North Greenwich. ''Era como se o Brasil estivesse jogando a final da Copa do Mundo, em casa, e o título fosse ser decidido pelo cobrador do último pênalti''. É assim que a ginasta lembra de sua caminhada até a trave, observada pelas colegas e pelos técnicos da delegação brasileira.
Daniele era a última atleta do Brasil a disputar o último aparelho do Pré-Olímpico em Londres, também a derradeira chance de classificação olímpica para a seleção feminina de ginástica artística. E, como se sabe, ela passou pelo aparelho sem erros - exatamente da maneira como deveria ser - para o Brasil levar, pela terceira vez consecutiva, uma equipe completa à Olimpíada.
Aos 27 anos, a ginasta estava diante daquele que é o ''seu'' aparelho - possivelmente, um dos mais difíceis da modalidade. Afinal, a atleta precisa manter-se equilibrada, fazendo acrobacias por 1min30, sobre uma barra de madeira com 10 centímetros de largura.
Com sangue frio, Daniele garantiu a presença de toda uma seleção feminina em Londres. Para ela, será a quarta Olimpíada, marca nunca antes conquistada por qualquer representante da ginástica brasileira. ''Passei de coadjuvante para protagonista de uma história na seleção'', considera a ginasta. ''E eu precisava, de alguma maneira, mostrar até para mim mesma de que sou capaz de dar muito para o País.''
E o reconhecimento, ainda que tardio, veio. ''Todo mundo viu agora que eu não tenho medo de puxar a responsabilidade. Nunca tive. As pessoas precisavam ver que a Daniele estava ali, como sempre esteve. Às vezes, esquecem disso. Dessa vez, não tem como esquecer'', conta.
A paulista de Santo André, que vive no Rio desde criança para representar o Flamengo, sabe muito bem o que é quebrar barreiras. Em 1997, Daniele sobreviveu a um grave acidente de ônibus na Rodovia Presidente Dutra, quando a equipe flamenguista ia para Curitiba disputar uma competição - sete pessoas morreram e Georgette Vidor, então técnica do clube e hoje coordenadora da seleção feminina, ficou paraplégica.
Sem sequelas, Daniele superou o episódio e, em 2001, ''escancarou'' as portas para uma geração de ginastas brasileiras. Naquele ano, ganhou a prata no solo do Mundial de Ghent (Bélgica), o primeiro pódio do País na história da competição. Esteve na Olimpíada de Sydney/2000, na de Atenas/2004 e na de Pequim/2008. Mas pareceu ser relegada à sombra de Daiane dos Santos (campeã mundial do solo em 2003) e do irmão, Diego Hypólito, bicampeão mundial do mesmo aparelho. Até o Pré-Olímpico realizado agora em janeiro na Inglaterra. ''Ela está consagrada pelo resto da vida'', avalia Georgette.

mockup