A vez dos clubes
A vez dos clubes
É recomeço de vida. Na folhinha do futebol, logo de cara, uma Copa do Mundo de Clubes, com a participação de quatro grandes equipes e outras quatro, nem tanto. A rigor, serão dois quadrangulares: um, bem pomposo, disputado pelos europeus Real Madrid e Manchester e pelos dois brasileiros Corinthians e Vasco da Gama. No degrau debaixo, o Al Nasser, o Raja Casablanca, o South Melbourne e o Necaxa.
O Mundial de Clubes, que principia modestamente, vai acabar emplacando. É questão de tempo. Politicamente, o torneio encerra uma vitória dos clubes sobre a própria FIFA. Todos se lembram: ano passado, Sepp Blatter lançava, com grande espuma, a idéia de fazer o mundial de seleções de dois em dois anos. Levou um chega-pra-lá da União Européia de Clubes. Seleção é espinha atravessada na garganta do clube. Quanto mais joga a seleção, mais se enfraquece o clube.
Acuado, Blatter mudou de idéia e criou o Mundial de Clubes, reconhecendo que a FIFA e suas confederações nacionais já levam mais do que merecem de parte dos clubes. Por isso, é de esperar que o Mundial de Clubes tenha chegado, de fato, pra ficar.
Agora, é aperfeiçoar o projeto, com regulamento capaz de eleger, por critérios estritamente técnicos, os concorrentes ao título de melhor equipe do planeta.
Cada inglês, uma ilha
Dos seis visitantes, o mais ilustre, pelo menos no momento, é o Manchester United, modelo de clube-empresa e cotado no mercado acima de um bilhão de dólares. Não o considero favorito, embora reconheça seu poderio como exemplar da respeitável escola inglesa de futebol. Futebol de realismo, de objetividade. Contido como o próprio povo do qual emana. O inglês, seja por educação, seja por pura encenação, é discreto. Assim leva a vida um bom britânico. Sem esbanjamentos. Viram vocês a chegada do Manchester United? Arredios, distantes, econômicos. Seu astro principal, o jogador David Beckham, encarou a pequena multidão de fãs como se estivesse diante de uma natureza morta.
O poeta Fernando Pessoa tinha razão, quando dizia que os ingleses nasceram pra existir... Ou quem sabe seria melhor dizer que cada inglês é um ilha misteriosa, irradiando indiferença por todos os lados?
De minha leitura de cabeceira, recolho um episódio, narrado por Paulo Mendes Campos, no livro O amor acaba, da Civilização Brasileira. Paulinho estava em Londres, tomando um chá na casa de uma família de classe média inglesa. A certa altura, um garoto de dez anos começou a contar uma história de rua. Como gesticulasse muito, o garoto foi severamente repreendido por uma voz sem inflecções: Desde quando a gente precisa usar as mãos pra conversar? O menino, de repente, esqueceu as mãos e continuou sua história com o auxílio das palavras. Retesado. O sorriso doce de todos iluminou de novo a sala: a educação britânica estava salva.
Assim são os ingleses, jogando futebol: sem mímica, sem muita graça.
Os dois finalistas
Quem não respeita os sortilégios do futebol? Eu sou um que morro de medo de apostar, cegamente, numa equipe. A lógica da razão prática está cansada de demonstrar quanto e como quebram a cara os favoritos de um campeonato, de um simples jogo. Ainda assim, os dados à vista favorecem os dois brasileiros do Mundial. Pra mim, tanto pode dar Vasco da Gama como Corinthians. Se bem que, do ponto de vista psicológico, o pêndulo se incline pelo Vasco. O Corinthians é um equipe saciada. Transpira, ainda, a ressaca do título de campeão do Brasil. Já o Vasco, renovado (não remoçado!) entra na luta movido por um ânimo de vitória que faz pulsar São Januário.
Espero vê-los, na final do Maracanã.
13 anos de Manchester
Como todas as honras que merece o Real Madrid, não é o espanhol mas o inglês Manchester United o grande representante da Europa no Mundial de Clubes. Ninguém conquistou tantos títulos quanto o Manchester United, recentemente: é o campeão da Liga Inglesa, campeão da Copa Inglesa e da Liga Européia de Campeões. A equipe é regida, fora do campo, pelo treinador Sir Alex Ferguson. É um belo exemplo de estabilidade: o homem está no comando do clube há exatamente 13 anos.
Em longa entrevista ao FIFA Magazine, Ferguson confessa que lhe dá muita segurança o fato de exercer o cargo há mais de dez anos. Não consigo compreender o entra-e-sai de técnicos no futebol. Ele considera simplesmente perturbador um regime que trata o treinador como matéria descartável. E cita um caso ainda mais exemplar que o dele: o francês Guy Rous, que trabalha no Auxerre há nada menos que 30 anos. E tudo o que Rous tem conseguido com esse clube relativamente pequeno é incrível. O Auxerre participa, permanentemente, das grandes competições européias e Rous tem podido transformar jovens talentos em estrelas mundiais. Enquanto isso, no Brasil...
Alex Fergunson não é otimista sobre o futuro do futebol. Esse futebol-negócio que tomou de assalto os clubes do mundo inteiro. Diz ele, sem hesitações: O futebol vive numa encruzilhada muito delicada. As somas de transferências são exorbitantes; os salários, igualmente astronômicos. O futebol corre o risco de perder o rumo.





