As provas da Fiat Turismo marcadas que serão realizadas hoje no Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Londrina, comprovam que as mulheres invadiram de vez o automobilismo. Até a década passada foram poucas as mulheres que se aventuraram na carreira de piloto. Muita gente não admitia que sua filha ou esposa fosse entrar dentro de um cockpit e pisar fundo. Até então o papel da maioria delas era acompanhar a família em dias de corrida para torcer pelo pai, irmão, primo ou namorado. Nos autódromos, enfrentavam apenas olhares de cobiça e algumas piadas machistas.
Casos recentes, porém, mostraram que algumas mulheres resolveram encarar o desafio e não fizeram feio, como a carioca Suzane Carvalho, que foi campeã da classe B da F-3 sul-americana; e a gaúcha Cristina Rosito; que correu na F-Chevrolet em 93 depois de andar em Marcas.
Este ano as portas se abriram: visando incrementar ainda mais as disputas, uma vez que a Fiat Turismo costuma ter mais de 60 carros por etapa, a organização do evento resolveu criar a F-Uno feminina. Chegava, definitivamente, a vez das mulhares. Uma com mais experiência, outra com nenhuma. Mas a vontade de acelerar forte falou mais alto. Nas cinco etapas já realizadas, a média é de dez competidoras por prova.
César AugustoPisando fundoAndrea Klotz (de pé) e Juliana Carreira: tara por velocidadeA família da paulista Juliana Carreira, 20 anos, líder do campeonato com quatro vitórias em cinco provas, respira velocidade. O pai, Luis, ainda na ativa, já correu provas de longa duração, Stock Car, Hot-Dodge e atualmente compete na Corsa paulista. ‘‘Sempre acompanhei meu pai, mas ele não queria que eu pilotasse. Fiz um curso de pilotagem escondido e, quando ele descobriu, já era tarde. Meu principal aprendizado foi com ele, que me deu todas as dicas de como andar bem. Por isso correr hoje não é novidade para mim’’, diz Juliana, que tem 92 pontos, 31 a mais que a segunda colocada.
Aos 30 anos e vindo de uma família de pilotos, a londrinense Andrea Borghesi sempre acompanhou o pai Luciano e os irmãos Tazzio e Marcelo, além do primo Beto, pelas pistas paranaenses. Depois de tantos anos na torcida, ela resolveu conhecer o outro lado da moeda. ‘‘Todos diziam para eu tentar correr e aí quando vi que a Uno seria das mulheres este ano resolvi aceitar o desafio’’, conta. Para ir ‘pegando mão’ de como pilotar, Andrea participou de uma prova de Marcas do Paranaense e terminou em quinto. Além disso, treinou em São Paulo e não esconde o que pretende na prova de hoje. ‘‘Minha intenção é o pódio.’’
A catarinense Andrea Klotz, 28 anos, é o que se pode dizer ‘tarada’ por velocidade. Seu pai, Arminio, correu na época dos DKW, e a mãe, mais ‘light’, participou de provas de arrancada. ‘‘Aliás, eles se conheceram durante as disputas regionais’’, conta Andrea, cuja família mora em Blumenau. Ela estreou com o campeonato já na terceira etapa. Sem conhecer o carro e a pista de Brasília, largou na pole e liderou de ponta a ponta. ‘‘Corri a convite da Maria Helena Fittipaldi, que não pôde competir, e consegui logo de cara a vitória. Foi ótimo’’, conta a piloto, que aprendeu a dirigir carro aos oito anos e com 13 andava de moto.
Já a cascavelense Maria Christina Moreira, 23 anos, que é jornalista, decidiu correr porque acha que tem o ‘pé de chumbo’. ‘‘Tentei andar de Marcas em 97, mas por falta de patrocínio não deu certo. Estreei em Brasília e fui a primeira mulher da categoria a capotar o carro. Meu objetivo aqui em Londrina é subir ao pódio, e eu vou conseguir’’, diz ela.
Descontraídas fora da pista, as pilotos da F-Uno não escondem um desejo. Continuar correndo e mostrar que também podem fazer a festa em um autódromo e não ser apenas meras torcedoras. Por isso todas pedem maior apoio e patrocínio. ‘‘É o incentivo que nos motiva a continuar’’, diz Andrea Klotz.

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