A única saída está no trabalho de base
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terça-feira, 04 de novembro de 1997
Flávio Campos 
Milton DóriaVal de MelloÉ preciso resgatar o amor à camisa, e isto só se consegue através do trabalho de baseCansada de tantos fracassos e de ver os dirigentes contratando jogadores que raramente dão certo, a torcida do Londrina começa a reivindicar um futebol feito em casa, já a partir do próximo Campeonato Paranaense. Ninguém melhor para falar sobre o estágio atual do trabalho de base no clube do que Val de Mello, o técnico do time de juniores. Ontem, no dia em que completava 42 anos, ele esteve na Redação da Folha, para falar sobre o assunto. Valdecir Mello foi campeão por praticamente todas as categorias do Londrina, como jogador: infantil, juvenil, amador e até profissional, já que integrava o time que ganhou o Torneio Osni Silveira, no começo da década de 70, sob o comando do técnico Pinheiro. Depois virou treinador de equipes amadoras e continuou ganhando títulos: bicampeão rural e campeão da Liga Londrinense pelo Guaravera; campeão amador e campeão da Copa Norte pelo Alvorada do Sul; vice-campeão da Copa Norte pelo Sertanópolis; e campeão rural pela Fazenda Beraldi. No ano passado assumiu os juniores do Londrina, contratado pelo então presidente Marcelo Caldarelli, e ficou cinco meses. Deixou mais de 20 bons jogadores no elenco. Quando voltou ao cargo, em abril último, só encontrou quatro jogadores. Recomeçou tudo, e diz aqui o que pensa sobre o futuro do Londrina.
FOLHA - Como é que você e os jogadores juniores estão vendo esta crise que pode matar o Londrina?
VAL - Com grande preocupação. Esta situação deixa todo mundo apreensivo. O acordo com os credores seria o melhor caminho, mas sabemos que será um acerto difícil. A saída da SAL agora seria a pior coisa para todos.
FOLHA - A crise chegou até vocês?
VAL - Chegou e está atrapalhando muito. A incerteza é grande. A dúvida é geral. Será que vamos continuar? Dois dias depois da eliminação do Londrina no Campeonato Brasileiro, naquele jogo com o Náutico, o time júnior teve que jogar uma partida decisiva, contra o União Bandeirante, e já sentimos a preocupação dos jogadores. Teve garoto que chorou no Estádio do Café, quando viu o Londrina eliminado pelo Náutico. O problema é que a gente sempre diz que eles estão sendo preparados para jogar futuramente no Londrina. E agora surge esta conversa de que o Londrina pode acabar. Imaginem como é que fica a cabeça dos meninos.
FOLHA - Muita gente começa a apostar no futuro do Londrina com um time de jogadores formados no próprio clube. Você também acha que esta é a única saída?
VAL - Não vejo outro caminho. É lógico que terá que ser um trabalho a longo prazo, mas não tem outro jeito. É preciso resgatar o amor à camisa, e isto só se consegue através do trabalho de base. Não é só o Londrina, não. Só é forte quem tem bom trabalho de base.
FOLHA - O Londrina já teria um time de garotos para disputar o próximo Estadual?
VAL - Não, não temos um time pronto. Mas já temos alguns juniores com amplas condições de integrar o time. Se o trabalho tiver sequência, acho que para 99 já teremos uma base muito boa.
FOLHA - Quem está pronto para jogar no time de cima agora?
VAL - Temos cinco jogadores que ainda jogam no time de juniores, mas já foram profissionalizados, porque estão prontos. O mais conhecido é o Edmar (zagueiro e volante). Reginaldo (lateral-esquerdo), Everson (meia), Adriano (centroavante) e Marco Antonio (volante) são os outros quatro. Além deles, o Marcio Paulinho (meio-campista de 19 anos) e o goleiro Aranha (19 anos) poderão ser aproveitados no elenco principal. E logo virão outros quatro jogadores que estão sendo preparados: o zagueiro Rosinei, o meia-esquerda Wamberto, o ponta-direita Rodrigo e ainda Renato, que faz o papel de quarto homem de meio-campo.
FOLHA - A SAL tem investido no VGD. Isto já está dando resultados?
VAL - Não é necessária uma estrutura melhor do que esta que foi inaugurada há 30 dias pela SAL. Os alojamentos são muito bons e o refeitório tem sido elogiado por todos. A comida é excelente. Acho até que a direção do clube deveria construir mais alojamentos, do outro lado do refeitório, para moradia dos profissionais solteiros. O investimento no VGD foi a grande jogada da SAL. Nenhum outro grupo de dirigentes se preocupou tanto em estruturar este setor do clube.
FOLHA - Durante a administração anterior chegou a ser comentado que os jogadores das categorias menores do Londrina até passavam fome. O que houve de verdade?
VAL - Realmente tivemos problemas sérios. Houve um dia em que surgiu até uma tentativa de greve, por causa da má alimentação. Entre os jogadores estava inclusive o Paulo Foiani, esse que hoje é profissional do Coritiba. A intenção do presidente Caldarelli era boa, mas as condições eram péssimas. Os jogadores moravam num lugar sem banheiros ou qualquer estrutura. Não se compara às condições que agora temos.
FOLHA - Qual é o melhor caminho para encontrar futuros jogadores? Realizando peneiradas ou procurando garotos pelo Brasil todo?
VAL - O caminho mais rápido é o de procurar bons garotos pelo País. Mas o problema é que qualquer garotinho que aparece já tem seu empresário, um intermediário que acaba dificultando as coisas. Mesmo assim, ainda se encontra jogadores semiprontos, em times pequenos do interior, que podem ser comprados por dois, três ou cinco mil reais. Com peneiradas e testes, o trabalho fica mais barato, porém muito mais difícil. Estamos testando de 5 a 8 jogadores por semana. E só eu recebo em média 20 telefonemas diários, de todos os cantos do Brasil. São jovens que querem uma chance no Londrina. E todos garantem que são craques. Só que, na hora de mostrar serviço...
FOLHA - A cidade pode esperar futuros craques nascendo no Tubarão?
VAL - Já não se acha facilmente os craques que surgiam no passado. Naquele tempo, o futebol era a única saída para o menino pobre. Hoje existem outras alternativas. Tem garoto que ganha 300 reais por mês jogando futsal e não aceita abrir mão disto para ganhar 100 reais treinando na Escolinha do Londrina. Já fui atrás de cinco ou seis garotos assim, e não consegui tirá-los do futsal. O basquete e o vôlei são outras alternativas de hoje para os garotos pobres, que querem melhorar de vida. Entretanto, com um trabalho sério, a longo prazo, vão surgir grandes jogadores, que darão um ótimo retorno ao Londrina.


