A triste manhã do Zé Palmeirense
Paulo Briguet
De Londrina
Que venham os analistas, os comentaristas, as mesas redondas. Que venham os técnicos com seus 4-2-4 e os estrategistas com suas pranchetas, sempre arranjando motivos muito lógicos para explicar o inexplicável. Que venham as estatísticas de bolas chutadas a gol e escanteios pra lá e pra cá, e os tira-teimas e os cronômetros de posse de bola, na ridícula tentativa de transformar suor e lágrimas em matemática. Que venha o Galvão Bueno ressaltar a coragem dos atletas. Que venha o José Roberto Wright apontar as falhas da arbitragem. Que venham todas as razões do mundo. Nada isso mesmo: nada vai superar ou amenizar o fato mais límpido do universo: O PALMEIRAS PERDEU.
O futebol, segundo o filósofo popular Zé Palmeirense, é o império da irracionalidade. Em certas horas, não parece ser assim: tudo está muito explicado, muito lógico, muito bonito. Que volume de jogo! O Casagrande tá que é só entusiasmo, o Galvão esnoba a fleuma do Manchester, MAS... a zaga bobeia, o grande Marcos deixa de dar um passo um minúsculo passo! e a maldita vai para dentro da rede esmeraldina. Ah, rede esmeraldina, quem dera o peixe-bola nunca te alcançasse pelos pés bretões!
O Zé Palmeirense não culpa o Marcos (esse grande vigia das angústias) pela derrota em Tóquio. Marcão é um herói do Palestra e como tal deve ser recebido no Parque Antarctica. O Zé só pensou no Marcos para demonstrar que o sofrimento é a grande essência do futebol. Quando se vence, a comemoração equivale a um alívio. Quando nosso time é campeão, sorrimos por não sentir o amargo vinho da derrota goela abaixo. Esse vinho que fígado nenhum do mundo saberá metabolizar.
Que ressaca, Zé Palmeirense! O sofrimento é a substância do futebol, e um homem deve saber confessar suas fraquezas. Zé sofre agora, apesar de não nutrir a mínima simpatia pelo sr. Luiz Felipe Scolari. De repente, surpresa: ele se flagra pensando no Felipão tal como um amigo de velha data. Ele até que se parece com meu tio!, admite Zé, e jura que nunca mais nesta vida xingará a senhora sua mãe, prezado tio Felipão.
No futebol, até as cabeças mais dialéticas recaem em severo maniqueísmo. O Zé, que nunca foi lá muito dialético, vê a vitória do Man... (ele se recusa a pronunciar o nome!) sobre o Verdão como a vitória do Mal contra o Bem. Esses fleumáticos-arrogantes-milionários ingleses acabaram superando os carismáticos-corajosos-talentosos brasileiros. Para piorar, quando faltavam uns dez minutos para terminar o jogo, na mente do Zé Palmeirense começam a ecoar os versos de Drummond, que ele tinha lido na época da escola:
Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
Também chamada noite, e o frio ao frio
Em bruma se entrelaça, num suspiro.
O jogo aqui era de manhã, mas e daí? A voz do Drummond e sua elegia apenas antecipavam o estrago irreparável no dia útil do Zé Palmeirense. Aos 35 minutos do segundo tempo, Zé percebeu a escuridão daquele noite em Tóquio baixando sobre o vale das almas verdes. Ele sentia frio e desamparo. Pior, teria que ir trabalhar depois.
E veio o apito final, mais doloroso que uma unha arrancada ou um ataque de melancolia. O Zé se lembrou de um outro encerramento de jogo apocalíptico, no Estádio Sarriá, em 5 de julho de 1982. Brasil 2 x 3 Itália. Na época, ele tinha 12 anos, e ao menos se dava o direito de chorar.
Mas ontem foi muito pior que perder a Copa do Mundo. Quando somos derrotados numa Copa, encontramos consolo no ombro de qualquer um. Todos os brasileiros sofrem juntos, há solidariedade nas ruas. Já uma derrota no Mundial Interclubes é a antesala de mais e mais e mais sofrimento. A torcida alviverde está entregue à própria sorte. Para o Zé, depois do 0 a 1, todo santista é um inimigo em potencial. Todo são-paulino o faz atravessar a rua. Todo corintiano o leva a cogitar: E se eu faltasse ao trabalho hoje?. Até um modesto torcedor do Juventus da Rua Javari se transforma numa sádica besta-fera. O silêncio é a única resposta, porque Drummond, o velho safado, vem incomodar outra vez:
E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico desse dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.
A poesia não conforta o Zé Palmeirense. Meu caro Drummond, onde quer que você esteja, custava o Palmeiras ser campeão? Custava o goleirinho deles não pegar todas? Custava acrescentar mais uma glória ao futebol nacional?
O Zé apenas se consola pensando nos dezessete longos anos em que esperou para ver o Palmeiras campeão. Quando, moleque, ele ouvia as partidas do Palestra com narração do Fiori Giglioti, o rádio sempre saía do ar na hora do gol. Ontem, o gol do Palmeiras e Deus sabe como era forte esse grito ficou guardado nos seus pulmões. Foi como se o mundo escapasse mais uma vez da sintonia, interrompendo a transmissão da vida. Mas a vida, senhores, é circular como a bola. Libertadores da América. Terra do Sol Nascente. O Zé palmeirense sempre gostou desses nomes. A liberdade ainda vai abrir as asas sobre ele, se Deus quiser, na temporada que vem. O time tá bem preparado fisicamente, psicologicamente, vamos seguir a orientação do professor e buscar a vitória...
Os milhões de palmeirenses do Brasil têm razoável experiência com esperas convictas, jornadas impossíveis e vinhos amargos. E eles sabem que existem as compensações. Um dia, espera-se que próximo, a multidão de Zés libertará mais uma vez o grito; e o Sol irá raiar. Enquanto isso, nós curtimos o terceiro tempo dos dias úteis. Sim, a essência do futebol sempre foi o sofrimento.
Mas a vantagem é que ele se dilui no cotidiano, para um dia voltar em seu avesso: o gol.
PAULO BRIGUET é redator da Folha. E palmeirense, como o Zé.





