De quarta-feira pra cá, só encontro gente chateada com a partida mambembe que jogou a seleção contra os mexicanos. E todo mundo pergunta: como pode jogar assim tão mal uma equipe repleta de celebridades? A maioria craques de uma equipe campeã do mundo! Dirigida por um técnico renomado, também ele campeão mundial.
Pra mim, surpresa alguma. A seleção do Brasil tem duas camisas: uma, realmente mítica, que só existe na hora de disputar Copa do Mundo, e a outra, banal, com pinta de faz-de-conta, que só existe mesmo pra encher as burras da CBF.
Vocês repararam bem na pasmante indiferença de Ronaldinho, aliás, dos dois Ronaldinhos? E se o Rivaldo lá estivesse, certamente, o descaso seria triplicado. Parecia que eles estavam treinando. Ninguém se iluda: aqueles jogadores não deram a mínima bola pro jogo. Só estavam ali porque não podiam deixar de estar. Eles sabem muito bem que aquilo ali era mais um mero caça-dólares do qual não veriam a cor de um mísero tostão. Craque profissional, jogando de graça, hoje em dia, sempre vai dar no que deu. Nenhum deles jamais vai arriscar suas douradas canelas em amistosos sem grandeza, bolados, exclusivamente, pra expor a logomarca do patrocinador e, como consequência, assegurar a entrada de um bom dinheiro no cofrinho da CBF.
Há muitos e muitos anos, depois de um amistoso inexpressivo, no qual ninguém em campo tinha suado a camisa, Didi, mestre Didi, reagia à vaia da torcida, com uma frase que ficaria famosa: ''Treino é treino, jogo é jogo.'' Dali a dois meses, o Brasil ganharia a Copa de 58.
Pros herdeiros de Didi, o jogo com os mexicanos não passou de um simples treino. Sempre foi assim e assim sempre será.
Só quem levou a sério o amistoso foi o técnico Parreira ele e, naturalmente, os jogadores que ainda não têm cadeira cativa na seleção. Foi o caso do lateral Belleti, sem dúvida, com uma boa participação o jogo inteiro, principalmente, pelo empenho.
Mas, pouco tem a fazer o técnico, quando a seleção encara um amistoso, como aquele de Guadalajara. Um titular absoluto, como Ronaldinho, jamais suará a camisa por nada. O jeito é o treinador ter paciência. Compreender que uma equipe sem motivação jamais irá além de meia gota de suor. Nem por isso, porém, devemos aceitar a mediocridade de um volante como Emerson. Nada mais obsoleto, nada mais sem graça do que o futebol inexpressivo de Amoroso e do lateral Júnior. Se jogar partidas como essa de Guadalajara é perda de tempo, não deixa de ser um tremendo furo n'água, também, convocar jogadores que nunca deram luz à seleção. Quanta falta de imaginação.
Parreira é um treinador experiente. Ele não espera ver Ronaldinho ensopar sua nobre camisa num jogo de estrito interesse mercantilista. Ronaldinho teve três chances de marcar, no segundo tempo. Chutou três vezes, mandou a bola pro espaço, com chutes de um primarismo atroz... Nunca vi indiferença maior.
O diabo é que o treinador nem pode tirar partido desses caça-níqueis, escalando, o mais cedo possível, a nova safra. O anfitrião só paga uma fortuna, com a garantia contratual de ver em campo a fina flor da equipe campeã mundial.
Em suma: a seleção faz-de-conta joga sem alma. E, sem alma, amigos, não dá pra ganhar nem um simples treino.
A maratona paraense
Leitores paraenses me perguntam, ansiosos, se o Paysandu fará bonito no Campeonato Brasileiro. Pra ser franco, acho difícil. Time pra tanto, o clube já provou que tem e como tem. O diabo é o fôlego. Quantas viagens de seis, sete, oito horas de vôo, terá que fazer a rapaziada do Paysandu, nos próximos sete meses? Oito de ida e mais oito de volta. Não há mente, não há músculos que suportem o desgaste de milhares de quilômetros voados, pra lá e pra cá. De quebra, ainda entra nesse pesado passivo o vai-e-vem da Libertadores que já consumiu muita energia de seus bravos jogadores. Só se o Paysandu tivesse dois times do mesmo calibre.
Quem fala assim não é um profeta, é uma testemunha da exaustiva maratona do simpático campeão dos campeões.
E-mail: xapuriarmandonogueira.com.br

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