Se é verdade que da discussão nasce a luz, a seleção pode estar emergindo da sombra em que está metida. Wanderley Luxemburgo queixa-se de que o futebol brasileiro vive as carências típicas de uma entressafra. Técnicos ilustres, ex-jogadores não menos notáveis, discordam do treinador. Acha a maioria que o treinador não tem sido feliz nas sucessivas convocações.
Que o elenco selecionado não é lá essas coisas todo mundo sabe. Mas isso não tem nada a ver com a realidade. A meu ver, o futebol brasileiro, tal como o argentino, continua a ser de uma riqueza individual incomparável. Aí está o futebol europeu que não me deixa mentir.
Recentemente, a União das Ligas Européias constatou, em ampla pesquisa, que 23 e meio por cento dos jogadores da primeira divisão italiana são estrangeiros. Metade dessa cifra vem do Brasil e da Argentina. Na Espanha, o contingente de não-nacionais chega a 42,7%. A legião brasileira do futebol espanhol é, longe, a mais expressiva. No espaço de apenas um ano, o número de estrangeiros na Liga Inglesa subiu, dramaticamente, pra 200 estrangeiros, muito deles, importados do Brasil e da Argentina.
Mesmo alcançado por uma permanente sangria, o futebol brasileiro continua a revelar bons jogadores. Na verdade, o êxodo é até saudável porque estimula a renovação. O mal do futebol europeu – notadamente o inglês, o espanhol, o alemão e o italiano – provém justamente da presença maciça de estrangeiros, que acabam asfixiando a garotada das divisões de base.
A meu ver, Wanderley Luxemburgo anda embaralhado, não por escassez de talentos, e sim por estar ele apostando todas as fichas em jogadores como Emerson e Zé Roberto, que ocupam posições primordiais na equipe sem ter o talento necessário à criação de jogadas. Os dois valem mais pelo suor que pelo dom de jogar futebol. Vampeta ainda produz razoavelmente, mas tem o pecado de prender a bola quase sempre além da conta.
A situação se agrava porque a alternativa de apoio, que seriam os laterais, tem sido de uma esterilidade aterradora. Roberto Carlos e Cafu andam jogando um futebol burocrático que os deixa a meio caminho: nem atacam, nem defendem; quando muito, se defendem...
A zaga de área, igualmente, não tem correspondido. Antônio Carlos e Aldair são muito vulneráveis quando expostos a um combate direto. Um, já alcançado pelos anos; o outro pela falta de serenidade. Antônio Carlos até que tem boa técnica individual, mas é estabanado no ato de desarmar.
Wanderley Luxemburgo não tem sido feliz na escalação de Rivaldo como homem de organização de jogo. Já disse e repetirei, sempre: Rivaldo é um belo solista, senhor de um poder de ataque e de finalização como poucos atacantes na atualidade. Mas só é capaz de criar pra ele mesmo. Ele tem lugar no time, mas não fazendo o que faz.
Pra todos os supracitados, o futebol brasileiro tem opções bem melhores. Ou alguém duvida que uma meia-cancha de Alex, Wagner e Ricardinho (Corinthians) não é melhor que Vampeta-Zé Roberto-Emerson? Quem duvida que Athirson ou Júnior, qualquer um dos dois, poderá render mais que Roberto Carlos? Pelo menos, a julgar pelo teor do futebol do titular, esta é uma tentativa que merece ser feita por Wanderley Luxemburgo.
Em suma, o problema não está nos pés dos jogadores. Está, mesmo, é na cabeça do treinador. Em tantos anos de arquibancada, estou chegando à conclusão de que a seleção, substantivo feminino, tem, da mulher, o insondável poder de virar a cabeça do homem que a conquista.
Ou bola ou búrica
São Paulo x Cruzeiro: o primeiro jogo foi muito travado. Menos da parte do São Paulo e bem mais da parte do Cruzeiro. Foi uma opção tática do time mineiro, respeitando o fator campo que, no plano psicológico, tem um peso respeitável. Sem qualquer alusão, o galo sempre canta melhor no seu terreiro.
Hoje, em Belo Horizonte, as atitudes podem se inverter, pois a torcida do Cruzeiro, majoritária, certamente irá inflamar sua equipe, levando-a a correr mais risco em nome do triunfo. É bom lembrar que, no jogo de hoje, o regulamento conta muito. O empate de zero-a-zero não deve convir a ninguém, pois leva o destino do título pro tormento dos pênaltis. Assim, o São Paulo não poderá se portar no Mineirão como o Cruzeiro se portou no Morumbi. Até porque, se houver empate com gols, a vantagem será paulista.
Ninguém vai poder ficar em cima do muro. Dessa vez, ou é bola ou é búrica.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Nem só de futebol (e de Wimbledon) vive um cronista. Daí que resolvi refrescar o coração, com a clarineta mágica de Paulo Moura. Fui vê-lo e ouvi-lo no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. Ele e sua banda estão revivendo Benny Goodman, admirável solista norte-americano que, durante meio século, fez as glórias do ‘‘swing’’. Paulo Moura é um músico de dimensão imperial. Soberbo.
- O torneio de Wimbledon tem sido um admirável show de tênis, tanto no masculino como feminino. A derrota de Hingis contra Venus Williams pode significar o novo tempo de um tênis feminino incrementado pela força física. O que bate na bola a esgalga Venus Williams é um assombro. Hingis é técnica pura, cristalina, perfeita. Adoro vê-la jogar, mas se ela não ganhar músculos mais fortes, só vai perder terreno daqui pra frente. E nem se diga que é uma questão de raça negra, branca ou amarela, pois Pierce, Davenport e Seles soltam o braço com golpes de incrível potência.

mockup