A seleção leva mais uma traulitada. Outro dia, foi o Uruguai, agora, foi o México, amanhã, poderá ser a Tonga da Mironga, lá dos Mares do Sul. E o Felipão, é lógico, está arrancando os cabelos. Diz que chega de equações. Nem 4-4-2, nem 3-5-2, nem noves fora, nada. A saída, anuncia o técnico – a saída vai ser a psicanálise. O problema não está nos pés e sim na cabeça dos jogadores. É preciso cutucar a auto-estima da rapaziada. Análise de grupo. O jogo da verdade entre o Roque Santeiro e o Cris, cruz, credo!
A seleção brasileira, amigo leitor, é, hoje, um mero espantalho que já não assusta mais ninguém. Qualquer passarinho mais assanhado ignora solenemente a assombração e faz festa no nosso milharal. A equipe é ruim, gente. E o pior é que o mundo inteiro já sabe. No Gabão só se fala nos fiascos da seleção. A Coca-Cola está rindo à-toa porque a Ambev entrou numa fria.
Hoje é contra o Peru. O Peru que outro dia empatou com o Brasil aqui dentro de casa, no Morumbi. Imagino os peruanos, depois do que viram contra o México: ‘‘Ah, domingo, é a seleção do Brasil? Essa nós já conhecemos. Deixa com a gente!’’
Francamente, se é pra andar por aí levando bordoada a torto e a direito, e sair do campo de cabeça baixa, então, o melhor é dispensar os espantalhos europeus e mandar logo o Íbis, o Íbis que é insuperável na arte de perder. Perde, mas, pelo menos, perde com orgulho, perde de cabeça erguida.....
GOL DE MÃO VALE?
Se o goleiro Rogério Ceni tivesse visto o gol do Pet, contra o Helton, do Vasco, na final do campeonato do Rio, certamente, teria tido o cuidado de se colocar mais à esquerda pra espalmar o chute do gringo. Não tendo visto, perdeu duplamente: primeiro, que acabou tomando o gol e, depois, que só viu uma vez uma obra-prima que eu e muita gente tivemos o privilégio de ver, no original, duas vezes. Foi quarta-feira, no jogo Flamengo-São Paulo.
Sei de muitos gols de falta realmente maravilhosos. Entre os autores de chutes assim, de rara precisão, posso citar Zico, Platini; antes deles, mestre Didi. Vi outras execuções igualmente notáveis. Porém, fazer o que acaba de fazer o sérvio Petkovic, francamente, coisa igual nunca vi. A falta contra o São Paulo chega a nos dar a sensação de que o tempo é realmente cíclico. Vai e volta. A cena se repete, integralmente, sem nada tirar, sem nada por: o lugar da bola, a distância da falta, a trajetória parabólica, a potência do chute, o cantinho em que a bola entrou, o salto (inútil) do goleiro. Tudo igualzinho ao gol do Pet no Vasco. Até mesmo a coincidência de ter ocorrido numa decisão de título. Inseridas todas as variáveis num computador, o gol é o mesmo nas duas cobranças. Impressionante.
É tamanha a perfeição da obra que um leitor me escreve, com fina ironia, querendo saber porque o árbitro não anulou o gol. E pergunta: ‘‘desde quando gol com a mão também vale?’’
O NOVO DIVINO
Estou lendo o livro sobre a vida e a obra de Ademir da Guia que, depois de ser batizado ‘‘filho do divino mestre’’, acabaria também ele chamado de Divino. Entre as histórias que ele conta, em parceria com o jornalista Kleber de Souza, há uma que dá aos mais jovens uma idéia da grandeza do futebol de seu pai, o inesquecível Domingos da Guia:
’’- Certa vez - relata Zizinho, um dos personagens do livro - eu estava no Uruguai. Fui visitar Obdúlio Varela e disse a ele que trazia um abraço especial pra ele, do Brasil. Obdúlio perguntou:
- De quem?
- De Domingos da Guia - respondeu Zizinho.
Obdúlio, já bem coroa, pôs a mão no queixo e ficou a repetir, como se fosse fazer uma oração:
- Domingos da Guia! Domingos da Guia! Domingos da Guia!
E recordou:
- Quando o Nacional de Montevidéu contratou o Domingos, nós, jogadores, tal como a imprensa uruguaia, ficamos revoltados. Por que contratar um zagueiro de fora se o maior zagueiro do mundo, o Nasazzi jogava muito e era uruguaio? Aí, o Domingos estreou, jogou um mês, dois meses... No terceiro mês, percebemos que até a chegada do Domingos, ninguém aqui no Uruguai sabia o que era um zagueiro. Jamais o mundo verá um zagueiro igual a Domingos da Guia.’’
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Niterói recebe de volta o filho pródigo: Leonardo. Ele jogou nove anos no exterior: Espanha, Japão, França e Itália. Por onde passou, Leonardo deixou saudades, tanto pelo futebol fino e ardoroso quanto pela fidalguia da pessoa humana, do cavalheiro.
- A briga por ingressos pra Copa do Mundo de 2002 vai ser feia. Os organizadores calculam uma média de setenta e três interessados pra cada lugar disponível. Já pra final, a ser disputada no dia 30 de junho, em Yokohama, no Japão, são duzentos e quarenta e sete candidatos pra um único assento. Os cambistas estão delirando.
- Miguel Angel Bossio, agente de jogadores, viu o Mundial Sub-20, de olho no futuro. Foi lá por conta do Valência. Voltou desolado. Diz que não viu nada que valesse a pena. Achou os brasileiros muito fracos.
Colaborou Andréa Escobar

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