A pátria de chuteiras
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quinta-feira, 12 de julho de 2018
Jamil Chade<br>Agência Estado 

Moscou - Na Croácia, que fará no domingo (15) contra a França sua primeira final de Copa do Mundo, o futebol e a política sempre andaram de mãos dadas e os times em campo chegaram a fazer parte dos esforços independentistas. Herdeiros da escola iugoslava, os croatas passaram a assumir o papel de embaixadores de um novo país que ganhava forma, inclusive com conotações violentas.
Esse papel já era uma realidade antes mesmo da declaração de independência. Em maio de 1990, um jogo entre o Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado resumiu a tensão política e passou a ser considerada por muitos como a primeira batalha da guerra dos Bálcãs, disfarçada de confronto entre torcedores violentos.
Hoje diretor da Fifa, o então capitão do Dínamo, Zvonimir Boban, atacou um policial que estava espancando um torcedor croata. Boban ganharia status de herói nacional, já que seu golpe foi interpretado como símbolo da coragem do povo croata contra as autoridades iugoslavas. Duas semanas depois, o nacionalista Franjo Tudman seria eleito presidente da Croácia, que, um ano depois, declararia sua independência.
O próprio Tudman, ex-presidente do clube Partizan, sabia do poder do futebol. Seu partido fez uma aliança com os torcedores de linha dura do Dínamo, e a ideologia nacionalista e o futebol passaram a fazer parte de uma mesma história. Até hoje, são repetidamente punidos pela Uefa e pela Fifa por atitudes fascistas nos estádios.
Mas a explosão do time croata não ocorreu por acaso. Por décadas, os iugoslavos eram conhecidos como "os brasileiros da Europa", por conta de sua habilidade. Em duas Copas do Mundo, terminaram em quarto lugar - 1930 e 1962. Foram ainda vice-campeões europeus em 1960 e 1968.
Mas sua melhor geração ainda estava por vir. Em 1987, a Iugoslávia surpreenderia ao vencer o Mundial sub-20, disputado no Chile. Em campo, Prosinecki, Zvonimir Boban, Davor Suker, Robert Jarni e Predrag Mijatovic.
Na Copa de 1990, chegaram às quartas de final e apenas foram eliminados pela Argentina de Maradona. Tudo estava pronto para um time que, em 1994, poderia encantar o mundo. Mas a guerra destruiu um projeto de seleção. Diante da destruição que consumia a região, nenhuma seleção dos Bálcãs foi para a Copa de 1994. Dois anos depois, na Eurocopa, os croatas já chegaram às quartas de final.
Em 1998, o grupo de Prosinecki, Boban, Jarni, Boksic e Suker terminaria como terceiro colocado na Copa do Mundo e apenas ficou de fora da final ao ser eliminado pelo time da casa, a França.
O filósofo croata, Srecko Horvat, lembra como aquelas primeiras conquistas do time rapidamente foram usados pelo governo em Zagreb. Tudman, segundo ele, costumava dizer que "vitórias do futebol ajudam a formar uma identidade nacional tanto quanto as guerras". "O futebol foi usado para gerar um apelo popular à ideia nacional de Tudman e para legitimar seu governo", escreveu o filósofo no jornal The Guardian.
Segundo ele, assim como nos primeiros dias do nascimento de um país independente, o futebol e a conquista croata voltam agora a ser "usados por forças nacionalistas e pela atual presidente, Kolinda Grabar-Kitarovic, que, ao ser vista pulando nos jogos, está em campanha para a eleição presidencial do ano que vem".
Desde 2008, a Croácia é assolada por repetidas crises econômicas, enquanto uma imensa parte de sua juventude tomou o caminho da Europa. A classificação para a final promete suspender a crise por alguns meses, mesmo diante de uma derrota.
Mas jornalistas e observadores de Zagreb não deixam de traçar paralelos entre 1998 e 2018. Há 20 anos, a Copa na França interrompeu um período de dúvidas e gerou uma euforia que nunca mais se repetiu. Agora, o futebol volta a ter um papel central na história de poucos anos do País.


