A obra do pedreiro que virou maratonista
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de maio de 2005
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Trabalhando com cimento e tijolos, o pedreiro londrinense Leonardo Teixeira Couto, 41 anos, conseguiu formar sua família. A vida seguia tranquila e sem surpresas até que teve diagnosticado um problema na perna esquerda. Mas como um bom construtor ele fez das dificuldades um instrumento para transformar a realidade e há um ano e quatro meses encarou pela primeira vez o desafio de superar correndo os mais de 42 quilômetros de distância que separam as linhas de partida e chegada de uma maratona. E não parou mais. Seu próximo objetivo, marcado para o próximo dia 29 de maio, será participar da Maratona Internacional de Porto Alegre.
Filho de família simples, desde moleque Couto teve que aprender a fazer das adversidades impostas pelas desigualdades motivos suficientes para continuar lutando com a vida. Há 38 anos morando no Jardim Nossa Senhora da Paz, um dos bairros mais violentos da Zona Oeste de Londrina, ele confessa que nunca imaginou que um dia se tornaria um atleta. Mas o destino reservava algo mais para esse pedreiro. Quando um médico identificou um problema na perna esquerda e indicou uma cirurgia, o pedreiro percebeu que o momento era de reconstrução.
Decidiu então fazer as primeiras caminhadas. Começava aí sua história como corredor de maratonas. ''Comecei a correr e fui evoluindo. Dos 10 caras que começaram comigo, todos com 20 e poucos anos, só sobrou eu'', conta orgulhoso o atleta de 41 anos.
Há um ano e quatro meses, participou de sua primeira prova. Venceu os 42,195 quilômetros da Maratona Ecológica de Curitiba em três horas e 15 minutos. Depois disso, participou da São Silvestre do ano passado, quando cravou o cronômetro em 50 minutos.
Dias antes porém, em 12 de dezembro, correu em Londrina a prova realizada em comemoração ao aniversário de 70 anos de emancipação política do município. Chegou em quinto na sua categoria. Em 20 de fevereiro deste ano, enfrentou seu mais duro desafio ao participar da Supermaratona de 50 quilômetros em Rio Grande (RS). ''Escondi uma contusão na perna mas consegui completar a prova'', revela.
Família Enquanto os primeiros lugares e as glórias do reconhecimento público não chegam, o pedreiro usa como incentivo as seis medalhas conquistadas e que estão guardadas num cantinho especial da casa simples que divide com a mulher e quatro filhos. Os filhos, aliás, até o momento ainda não despertaram para seguir o exemplo do pai-pedreiro-maratonista. ''Coloquei o mais velho, que tem 17 anos, para correr mas ele não aguentou'', brinca. Convencer a esposa sobre a necessidades dos treinamentos diários e das viagens também foi duro. ''Só agora que ela começou a sentir firmeza'', comemora Couto.
Sua rotina de preparação inclui duas rodadas diárias de treinamento 10 quilômetros pela manhã e 20 quilômetros no final da tarde. O atleta que não tem acompanhamento físico nem nutricional começa suas corridas às 5h30, já que às 7h30 ele precisa trocar o tênis pela colher de pedreiro. E engana-se quem pensa que o maratonista reserva os finais de semana para o descanso. ''Aproveito para fazer corridas de 35 quilômetros'', aponta. Seu único patrocinador é a Fiação Bratac, que banca os tênis e as viagens.


