Guga está sem confiança porque anda perdendo, ou anda perdendo porque está sem confiança? Eis a questão. O tênis é, ao lado do golfe, um inclemente exercício de solidão. Na quadra, ninguém pode ajudar o tenista: é ele e mais ninguém. Não adianta clamar por mamãe. Apelar pros céus, muito menos. Seria abusar da suprema isenção de Deus, o que talvez fosse pecado. Então, amigo, o jeito é se virar sozinho.
O ex-jogador americano Timothy Gallwey escreveu um livro chamado ''The Inner Game of Tennis''. Trocando em miúdos, seria o tênis da mente, o jogo que transcende o corpo e que mobiliza a alma do tenista. É das leituras que mais me ajudaram a entender os caprichos desse maravilhoso esporte.
O capítulo mais fascinante do livro trata de um fator essencial no esporte, que é a concentração. E é por essa porta que me permito especular sobre o problema de Guga.
Que ele está sem confiança, é indiscutível. Sucede, porém, que, na ordem dos atributos mentais, a concentração vem antes da confiança.
Quem não conhece a velha sentença dos entendidos de tênis: ''fulano saiu de jogo!'' Sair de jogo é perder a concentração. Desconcentrado, o jogador começa a errar e quanto mais erra, menos confiante fica.
Nos últimos jogos de Guga, tenho notado que ele se desconcentra a três por dois. Perde o foco e erra; com o erro, sobrevem a insegurança. De repente, ele, que sempre se impôs pelos golpes ousados (ah, que saudades daquelas paralelas de esquerda!), torna-se um conservador. Troca o risco pela cautela. Limita-se a por a bola em quadra, jogando mais no erro não-forçado do rival do que no seu poder de ataque.
Então, pergunto eu: será que Guga continua tão a fim de jogo quanto já esteve? Com que olhos Guga anda fitando o fascinante vai-e-vem da bolinha? Concentração é precisamente a capacidade que tenha o tenista de se identificar com a bola, sua bem-amada. Vale a pena repetir a máxima: a bola é a menina dos olhos do tenista.
A história do tênis é rica de incursões no plano das cogitações transcendentais. É notória a influência da ioga no fortalecimento mental dos tenistas. Os grandes jogadores da geração de Ivan Lendl jogavam, entoando, mentalmente, como um refrão místico, uma palavra-chave, o mantra, do ritualismo induista. O mantra mantinha o tenista em pleno estado de concentração.
Timothy Gallwey conta uma anedota que ilustra, sob medida, a questão da identificação de concentração. Um dia, um crente budista confessou ao guru que não estava conseguindo fixar o pensamento em nada, especialmente. O mestre espiritual, então, recomendou-lhe que se trancasse num quarto e pensasse em Deus, só em Deus.
Dois dias depois, o professo sai do isolamento, com a mesma queixa: a mente continuava a voar, o tempo todo. O guru, então, perguntou-lhe qual seria o ente por ele mais amado nesse mundo. ''É um touro, respondeu um touro que tem na minha fazenda, com o qual eu me identifico plenamente.'' O mestre pegou-o pela palavra e ordenou: ''Concentre o pensamento inteiramente no seu touro.''
Três dias e três noites de desterro, e o crente não dava o menor sinal de vida. O mestre bateu na porta, pedindo-lhe que saísse. O prazo de recolhimento já tinha terminado.
O crente respondeu, com voz sumida, que, infelizmente, não tinha como sair. Nascera-lhe um par de chifres, mas uns chifres tão grandes que não lhe era possível passar pela porta...
Será que Guga ainda ama tanto a bolinha de tênis?
Rápidas e rasteiras
Apresso-me em fazer um reparo: em nota anterior, estranhei que Leão tivesse barrado Diego, domingo passado, como castigo por ter o jogador chegado, com atraso, a dois treinos do Santos. Achei que, em vez de privar o time e o público do futebol de Diego, o certo teria sido pegá-lo pelo bolso, tascando-lhe uma boa multa. Ocorre que não foi nada disso. Diego não jogou porque pegara o terceiro cartão amarelo. Resumo da ópera: pisei feio na bola. Leão que me perdoe pela injustiça.
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