A lenda húngara e os nossos mortos de Pistóia
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sábado, 15 de abril de 2006
João Máximo<br> Agência O Globo 
Rio de Janeiro - De todas as desculpas dadas para justificar a derrota do Brasil em 1950, a que mais perdurou talvez tenha sido a de que faltara raça, entusiasmo, amor à camisa e até brasilidade na seleção dirigida por Flávio Costa. Obdúlio Varela, o guerreiro capitão uruguaio, era o modelo do jogador que se devia imitar, se se quisesse ganhar uma Copa. Como ignorância costuma gerar ignorância, procurou-se injetar na seleção que em 1954 iria à Suíça justamente a idéia de que sendo ela a ''pátria em chuteiras'' (Nélson Rodrigues ainda não criara a imagem, mas os fatos que o inspiraram já existiam) era preciso agir como tal.
Por isso, os jogadores comandados por Zezé Moreira levaram na bagagem a bandeira nacional, o hino decorado, discursos inflamados e outros arroubos patrióticos para serem usados antes de cada jogo no tranquilo país-sede. Saíram daqui como soldados preparados para uma guerra a ser travada em campos de futebol.
Do outro lado, uma equipe realmente militarizada preparava-se para ganhar na Suíça, não uma guerra, mas a Copa do Mundo. Eram o major Ferenc Puskas e seus companheiros de seleção húngara jogando o que, na época, podia ser considerado o melhor futebol do planeta. Em quatro anos, aquela seleção jogara 25 partidas internacionais e não perdera nenhuma. Fora campeã olímpica em Hensinque e aplicara na seleção inglesa sua primeira derrota em casa para adversária não-britânica: 6 a 3 (ampliada para 7 a 1, meses depois, em Budapeste). Como afirmam Jacques Thibert e Jean-Philippe Rethacker em sua ''La fabuleuse histoire du football'', edição de 1996, ''jamais uma equipe dominou o mundo como a húngara''.
Muitos já se referiram à Hungria de Puskas, Kocsis, Hidegkuti, Boszik, como seleção lendária. Daquelas lendas que se materializam, viram fatos diantes dos nossos olhos. Os 7 a 1 sobre a Inglaterra deram-se menos de um mês antes da abertura da Copa, na qual, em suas duas primeiras partidas, os húngaros derrotaram os sul-coreanos por 9 a 0 e os alemães ocidentais por 8 a 3.
Só aquilo (24 gols em três jogos) deveria ser o bastante para alertar os brasileiros de que beijar a bandeira, cantar o hino ou ouvir o locutor Geraldo José de Almeida dizer, em discurso aos jogadores, ''Vamos vingar hoje os nossos mortos de Pistóia'', era pouco para interromper a impressionante marcha invicta dos húngaros. Mas não: o amor à pátria, dizia Luís Vinhais, supervisor da seleção, tudo podia.
A frase sobre Pistóia foi proferida justamente a poucos minutos da entrada em campo da seleção brasileira para enfrentar a húngara, já pelas quartas-de-final. Os jogadores beijaram a bandeira mais uma vez.
Já no gramado, perfilados ao lado dos 11 adversários, cantaram o hino com empolgação. De uma coisa estavam certos: não seriam agora as pálidas figuras como as de 1950, dominadas pelos gritos de Obdúlio, pela flama uruguaia, pela mística da ''celeste olímpica'', como ficou conhecida a camisa ganhadora de dois títulos oímpicos e dois mundiais, possivelmente empurradas pelo patriotismo.
Outra lenda, esta mais na imaginação do brasileiro do que diante dos olhos de quem sabe que futebol se ganha com futebol. Uma pena que tenha sido assim. Isto é, lamenta-se que os brasileiros tenham entrado em campo para uma guerra e não para tentar vencer a seleção húngara. Jogadores para isso tinham: a linha de zagueiros, Djalma Santos, Pinheiro e Nílton Santos, era muito superior à de 1950. No meio-campo, se Brandãozinho não chegava ao nível de Danilo, Bauer estava no auge e Didi já era Didi. No ataque, se o chamado trio atacante perdia para Zizinho, Ademir e Jair, o ponta-direita era o genial Julinho e o ponta-esquerda, Rodrigues, não ficava atrás de Chico. Na bola, até que podiam quebrar a invencibilidade húngara.


