Piracicaba - Vencer ou perder são palavras do vocabulário de qualquer atleta. Mas perder para o exame antidoping é implacável. E a punição, o afastamento do esporte, é a maior derrota. Esse é o pesadelo que assombra dias e noites de Eliane Luanda Cardoso Pereira depois que devolveu a medalha de ouro pelos 1.500 metros nos 7º Jogos Sul-Americanos, realizados em Belém, em agosto. O exame de urina confirmou a presença de estanozolol, substância proibida pela Confederação Brasileira de Atletismo e Federação Internacional. A contrapova positiva levou ao desespero a juvenil, de 19 anos, que quer dar a volta por cima e retornar o mais breve às competições. A medalha ficou para a chilena Eliana Vasquez.
Afastada da equipe, a BM&F Atletismo Funilense, desde a divulgação do primeiro resultado do doping, Eliana Luanda, retornou aos treinos nas pistas do XV de Piracicaba. Dois quilos mais magra, ela quer recuperar a auto-estima e realizar o sonho de vencer no atletismo. ''A minha família é tudo'', fala com um nó na garganta a ex-empregada doméstica que descobriu o esporte na sua cidade natal, Chapadão do Sul-MS, após conquistar os 1.800 metros. Recebeu troféu e premiação em dinheiro, cerca de R$ 250. Nunca mais parou.
A família se mudou para Piracicaba, interior de São Paulo. Vivem em casa alugada no bairro Industrial, periferia da cidade.
A menina começou a treinar nas pistas do XV. Foi descoberta pela Funilense e integrou a equipe em 2001. ''O primeiro tênis ganhei da Funilense; antes, os meus pés eram lavados em sangue'', conta. Mas foi desligada da equipe após o resultado do doping em agosto. Deixou de receber a bolsa de R$ 350 e material para os treinos. ''O sonho maior é a Olimpíada.'' Antes, porém, quer o Troféu Brasil, o Pan-Americano e estudar Educação Física e Fisioterapia. Cursa o 2º ano do colegial em escola pública.
Eliane afirma que não teve intenção no episódio do doping e é inocente. Em fevereiro deste ano procurou uma farmácia para comprar suplementos. Como o farmacêutico queria receituário assinado por um médico, Eliane e o pai Aldebrando chegaram até o Dr. Júlio César Alves.
A atleta então ganhou o patrocínio do médico e da farmácia. O médico prescreveu Creatina (5g/dia), BCAA (5g/dia), L-Glutamina (3g/dia), Complete Works (40g/dia) e Nor-andro-stack (2 cápsulas/dia). Em documento encaminhado a Comissão Médica da CBAt, ele admitiu: ''De acordo com o produto final, o pré-hormônio Androstene pode ser convertido em Estanozolol.'' O representante da atleta, o advogado Mário Lázaro dos Santos Filho, aguarda a definição da CBAt. Ele espera cópia do contrato de Eliane com a BM&F e questiona a forma do afastamento.

mockup