Para o técnico Zagallo e o coordenador de futebol Zico, que acompanharam in loco a vitória da Dinamarca sobre a Nigéria pelas oitavas-de-final, em Saint Denis, nem foi preciso ver e rever tantas vezes a fita editada pelo ‘espião’ Gilmar Rinaldi para chegar à conclusão de que o caminho mais curto para chegar a uma vitória hoje, em Nantes, pelas quartas-de-final da Copa-98, é pelas laterais. Excepcionalmente neste jogo contra a Dinamarca, os dois laterais funcionarão como verdadeiros alas, e a dupla de volantes - Dunga e César Sampaio - será responsável pela cobertura no setor.
O fato de Zagallo ter insistido tanto em trabalhar as saídas de bola da defesa brasileira, sem chutões, deixa claro que a Seleção vai usar e abusar das triangulações pelas duas extremidades do gramado. Isso explica o fato de ele não querer de jeito nenhum que sua equipe comece o jogo com chutões para frente. E com certeza não é só porque no ataque a Seleção Brasileira não conta com dois bons cabeceadores, como diz seu treinador. ‘‘Contra um time que joga com cinco jogadores fixos no meio e que dificilmente faz bobagens quando está com a bola, o Brasil deve impor seu ritmo com velocidade longe da zona mais povoada (o meio de campo).’’
Dos laterais brasileiros, Cafu é o que tem explorado melhor seu potencial ofensivo na Copa do Mundo. Mas, hoje, especificamente, ele reconhece que as jogadas de linha de fundo serão vitais para a Seleção Brasileira superar o congestionamento que a Dinamarca costuma fazer no meio-de-campo. ‘‘Todo mundo sabe que eles jogam com cinco no meio-de-campo e costumam bloquear bem esse setor. Por isso, a melhor saída serão as jogadas de linha de fundo, não só comigo, pela direita, mas também com o Roberto Carlos, pela esquerda.’’
Fora isso, Cafu revela um outro detalhe. ‘‘Como a Dinamarca é um time que sabe o que faz com a bola, a Seleção Brasileira vai precisar de inteligência. Atacar pela linha de fundo não significa insistir pelas laterais e pronto. É preciso jogar com inteligência e paciência. Ter consciência da hora certa de descer e não desperdiçar o ataque, porque a Dinamarca sabe como sair rápido da defesa para o ataque.’’ É justamente para evitar esse tipo de problema que o capitão Dunga e César Sampaio terão de ‘ficar’ um pouco mais nesse jogo.
Dunga reconhece a importância de se explorar as laterais, mas lembra que antes de pensar em colocar em prática essa opção, a Seleção Brasileira precisa ter a posse de bola. Uma vez com a bola nos pés, Dunga não tem dúvidas que o melhor caminho para fugir da compactação dinamarquesa é mesmo o jogo pelas laterais. ‘‘Nós temos uma grande chance com as subidas dos laterais em velocidade e de surpresa. Principalmente se houver variação nas jogadas.’’
Roberto Carlos garante que, acima de tudo, o que deseja é jogar bem contra a Dinamarca e ser elogiado. Ele diz que a seleção tem instruções para só fazer jogadas ensaiadas nas cobranças de falta, na partida de hoje, se o Brasil estiver ganhando. Se não estiver, a cobrança deverá ser direta. ‘‘Espero que a seleção não precise de jogada ensaiada.’’ Ele vê uma outra dificuldade para acertar seus fortes chutes. ‘‘A bola da Copa é mais leve e não dá muito efeito, costuma sair toda torta.’’
Cafu concorda que o time deva explorar bastante as extremidades do campo. ‘‘Se o negócio estiver complicado pelo meio, temos de acionar mesmo os laterais, porque é uma jogada forte da equipe.’’
Bem preparados fisicamente, ele e Roberto Carlos deverão ser os jogadores brasileiros de maior participação na partida. Com Leonardo ajudando Cafu pelo lado direito e Rivaldo aproximando-se de Roberto Carlos pelo esquerdo, o time tem mais condições de chegar à linha de fundo e cruzar as bolas para Ronaldinho e Bebeto. E os dois laterais prometem manter seu estilo ofensivo. ‘‘Contra o Chile, atuei quase como ponta esquerda; diante da Dinamarca, é lógico que tomaremos cuidado, mas vou avançar novamente’’, afirma Roberto Carlos. ‘‘Minha função principal é a de defender, mas tenho de aproveitar minha característica de apoiar com velocidade.’’

mockup