A história do menino que virou craque
Paulo Briguet
Enviado da Folha
Quando os passarinhos da zona sul de São Paulo começavam a cantoria, já estava na hora de Roberto jogar. Depois de dormir abraçado à bola, o menino saía para correr atrás dela na rua. Os gritos da mãe (Sai da rua, Roberto!) se misturavam à música das pequenas aves. Com o tempo, a arte falou mais alto: Roberto cresceu e virou o craque Rivellino, campeão do mundo e ídolo do futebol brasileiro.
Rivellino agora conta essa história no livro Sai da Rua, Roberto!, escrito pelo jornalista Osvaldo Pascoal Pugliese, seu colega na equipe de esportes da TV Bandeirantes. A biografia foi lançada em Foz do Iguaçu no dia 7, durante a Copa América. A edição em capa dura, da Master Book, foi baseada em depoimentos do ex-jogador e tem dezenas de fotos (a maioria de arquivo familiar). Em entrevista à Folha, o craque conta que, inicialmente, era contrário à idéia de uma biografia:
- Na verdade, foi o Pascoal que me convenceu a fazer o livro. Antes, eu achava que essas lembranças eram coisas particulares, que deveriam ficar só para mim. Mas depois vi que muita gente queria conhecer minha história.
Aos 52 anos, Rivellino faz um balanço da carreira de jogador - ele atuou profissionalmente entre 1965 e 1982 - e alinha muito mais alegrias que tristezas. O principal triunfo, evidentemente, foi a conquista da Copa de 70, ao lado de Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto. Em 74 e 78, Rivellino também estaria na Seleção. Mas ficou na memória aquela turma de 70, que exibiu o estilo mais apreciado por Rivellino:
- Gosto do futebol de espetáculo, do jogador que tem facilidade em tocar a bola.
Demonstrando essas qualidades, Rivellino foi lançado pelo legendário técnico Osvaldo Brandão, em 1965. Tornou-se um dos maiores ídolos do Corinthians em todos os tempos. Só não conseguiu realizar o sonho de ser campeão pelo time do Parque São Jorge.
Em 1974, ele teve uma das maiores tristezas da carreira. No ano em que completaria 20 anos sem títulos no Campeonato Paulista, o Corinthians foi para a final contra o Palmeiras disposto a acabar com o jejum. O time liderado por Rivellino era o favorito, mas o rival alviverde surpreendeu e ganhou de 1 a 0, no Morumbi. No livro, Rivellino fala sobre a angústia daquela noite. De tão decepcionado e atordoado, saiu a pé do Morumbi após a partida. Numa passagem do livro, ele conta:
- Fui andando pelas ruas até meu apartamento, as pessoas olhavam mas não acreditavam que era eu mesmo. Saí com a cabeça erguida: tinha perdido um título, mas ninguém iria me tirar o orgulho de ter vestido a camisa branca do Corinthians.
Vestindo outra camisa, Rivellino encontrou a alegria de ser campeão por um clube. Pelo Fluminense, foi bi do Campeonato Estadual do Rio em 1975/76. No tricolor das Laranjeiras, o craque fez o gol que considera um dos mais bonitos de sua vida. Em uma partida contra o Vasco, em 75, dominou a bola no meio-de-campo e iniciou uma assombrosa jogada individual: passou a pelota entre as pernas de Alcir, livrou-se de Renê e tocou na saída do goleiro Andrada. Rivellino confessa que naquele dia saiu de campo arrepiado. Mesmo assim, guarda carinho por todos os gols que fez:
- O gol é o orgasmo do futebol. É sempre importante, mesmo que seja feito com a barriga.
Um ídolo também tem ídolos. Questionado sobre os jogadores que admirou, Rivellino surpreende ao citar dois craques que brilharam no Palmeiras: Chinesinho e Jair da Rosa Pinto. Ele reserva uma palavra de homenagem a Didi, um homem que respeitou como jogador e técnico. Sobre Pelé e Garrincha, Rivellino comenta:
- Tive o prazer de jogar com os dois (com Garrincha, no Corinthians, em 69). Eles eram de outro nível, outra escala. Perto deles, todos ficavam menores.
Para Rivellino, a maior lição de Pelé foi o profissionalismo.
- O Pelé era o primeiro a chegar ao treino e o último a sair. Tinha uma força de vontade incrível, estava sempre correndo por todo o campo.
Em 1978, após o terceiro lugar com a Seleção na Copa da Argentina, Rivellino começou a pensar na idéia de deixar os gramados. Para isso, foi necessário um período de transição. A chance veio com a transferência para El Helal, clube da Arábia Saudita. Na passagem pelo Oriente Médio - que durou quatro anos - ganhou títulos e foi ovacionado pela torcida local. Em 1982, pendurou as chuteiras.
- Fui me acostumando aos poucos com a idéia de parar. É sempre triste, mas foi menos traumático graças a esse período na Arábia.
Rivellino encontrou novas formas de permanecer no mundo do futebol. Comentando jogos desde 86 na Bandeirantes, ele também coordena uma escolinha de futebol em São Paulo. Das peladas de rua da infância, resta o canto dos passarinhos. Em casa, Rivellino cria mais de 30 canários e coleirinhas. As aves fazem a música que ele adora, desde os tempos em que o menino Roberto dormia e acordava com a bola.Trajetória de Roberto Rivellino, tricampeão mundial pela Seleção Brasileira, é narrada na biografia Sai da Rua, Roberto!
Albari RosaEM AÇÃORivellino, agora comentarista, em Foz do Iguaçu: convencido por um colega jornalista a contar sua históriaReprodução/Arquivo de famíliaNA SELEÇÃOCom Gérson e Pelé, comemorando o tricampeonato mundial conquistado no México, principal triunfo de uma carreira de 18 anos: Gosto do futebol de espetáculo, do jogador que tem facilidade em tocar a bolaReprodução/Arquivo de famíliaNO CORINTHIANSPose com fãs antes de uma partida no Morumbi: decepção por não ter sido campeãoReprodução/Arquivo de famíliaNO FLUMINENSEContra o Botafogo, em 1975, no Maracanã: Rivellino acredita ter feito naquele campeonato, num jogo contra o Vasco, o gol mais bonito de sua carreira





