Gingado, atabaque, berimbau e muita energia. A capoeira, que muito sofreu preconceito antes de ser reconhecida como esporte, arte e cultura brasileira, teve que atravessar oceanos e continentes para ser reconhecida. Atualmente, ela cresce na esteira da curiosidade de americanos e europeus mundo afora e surge como oportunidade para os brasileiros conhecerem o mundo e trabalharem como professores em outros países.
Um dos mais antigos professores de capoeira da região, o Mestre Fran, há sete anos chegou na América para ensinar a ginga tupiniquim para os norte-americanos e conseguiu alcançar um estágio de reconhecimento que não encontrou no Brasil. Em 2002, foi convidado para dar um curso na Georgia State University por um ano. Quando terminou o contrato, se transferiu para outra instituição - a Emory University, em Atlanta, onde ministra aulas até hoje e tem cerca de 65 alunos.
Fran, que fica entre março e novembro nos EUA e o restante dos meses no Brasil, conta que na região as pessoas ''ainda possuem a mentalidade fechada''. Porém, na Califórnia, São Francisco e Nova York existe capoeira há mais de 30 anos. ''No restante do país ainda não tem muito. Mas é só trabalhar, pois na Georgia onde é mais restrito nós conseguimos implantar'', explicou.
Ele acredita que a receptividade dentro das universidades, que enxergam a capoeira como arte e cultura, ajuda a criar um mercado de trabalho fértil para sua expansão. ''O americano entra na capoeira para buscar o que não existe em outras artes marciais, como por exemplo a música (exclusiva da capoeira). Como o desejo deles também é conhecer o Brasil e aprender português, isso tudo acaba sendo um atrativo'', explica o professor que garante ser chamado para participar de eventos e workshops relacionados à capoeira quase todos os finais de semana.
Fran conta também que nestes sete anos foram abertos 11 núcleos do Grupo Maculelê pelo país, com vistas no crescente número de praticantes. Isso tem permitido desenvolver um trabalho de formação de professores, que atualmente contam até com aulas de inglês para facilitar a adaptação. Normalmente eles conseguem visto de trabalho, dependendo de algumas particularidades.
''Normalmente eles vão para trabalhar e não voltam mais. Quem sonha em ganhar o mundo com a capoeira não acredita quando chega lá e percebe que pagam para dar aula. É um reconhecimento, pois eles são professores dentro das universidades. É um trabalho muito melhor que o dos imigrantes que não possuem profissão'', ressalta.
O jovem Mateus Daciuk Moreira, o Molejo, é um dos alunos do Mestre Fran que sonham com a chance de trabalhar nos Estados Unidos como professor. Ele esteve no país em 2009, para participar de um Campeonato Mundial, organizado pela Maculelê, e percebeu que desde crianças até pessoas de idade avançada estão praticando a capoeira.
Quanto à recepção dos americanos, ele percebe que é muito diferente com relação aos brasileiros, pois se sentem mais livres que em outras artes marciais. ''Quando eles vão nos treinos, começam a conversar e a querer aprender o português com o pessoal da capoeira'', conta.
''Muitos dizem que queriam ser brasileiros para aprender a capoeira. Eu falo para eles que jeito tem, mas como a capoeira é do Brasil, a energia quem tem somos nós. Eles não tem, mas querem. Tanto que dão o dinheiro que for para ter este dom''.

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