A fornalha
de Marapendi
Terminado o jogo de Guga com Hrbaty, uma voz muito querida me avisou, com a certeza dos videntes: ‘‘Sexta-feira, foi o dia do Guga; sábado, o dia do Oncins e, hoje, é o dia do Meligeni’’. E assim se conta, com palavras de louvor, a história dos três pontos que deram ao Brasil a vitória contra a Eslováquia, na Taça Davis.
Típica vitória em que predominou o espírito de equipe. Primeiro, ao derrotar Kucera, sexta-feira, Guga devolvia ao Brasil o ponto que Meligeni perdera contra Hrbaty. E Deus, só Deus, sabe o quanto pôde o coração de Guga pra levar até o 5º set uma partida em que o nosso herói muito padeceu com a fadiga física e mental.
Tanto isso é verdade que, no sábado, a dupla foi salva por Jayme Oncins. Guga jogava aos trapos, nitidamente, consumido por duas semanas de pedreiras. Enfrentara, sucessivamente, Ivanisevic, Agassi e Sampras. Sem contar o autêntico suplício de cinco sets, na véspera, na fornalha de Marapendi.
O suplício maior de Guga viria no domingo. Hrbaty, novinho em folha, e Guga destroçado. Estou cada vez mais envergonhado pelo grau de desumanidade a que chegou o esporte-negócio. Uma afronta à dignidade da pessoa humana. Esporte de alta competição é o cúmulo da avidez. Nada mais que isso.
Enfim, a partida final, em tarde igualmente tórrida de calor, de umidade, de sol inclemente, Fernando Meligeni afrontava a lógica reinante e derrotava Kucera por 3 a 1. Kucera era, em quadra, a encarnação de Guga. Igualmente espoliado por dois dias seguidos de maratona, o tenista eslovaco chegou a cometer 79 erros não-forçados. De pura exaustão, deu de graça a Meligeni uma tonelada de pontos que, em condições normais, teriam sido, pelo menos, disputados em troca de bolas. Kucera e Guga dividiram a cruz em brasa viva do inferno de Marapendi.
Vitória brasileira, graças às reservas físicas e mentais de Fernando Meligeni, justamente o tenista mais poupado da competição, pois jogara sexta, sem grande desgaste e descansara sábado.
Não deixarei de louvar a bravura e a técnica, o fervor e o espírito de equipe dos tenistas brasileiros, na consagradora vitória contra a Eslováquia. Mas confesso que não gostaria de voltar a ver Guga como o vi nesses três dias de tormentos: a figura escaveirada, condenado a subir a ladeira do inferno a empurrar uma pedra descomunal que despencava e despencava mal chegasse ao cume da montanha.
O Guga dos amores nacionais está mais pra anjo que pra Sísifo.
O anjo Barbosa
Barbosa é do tempo em que eu não era jornalista. A ética da profissão ainda não tinha castrado em mim o direito à paixão mais desvairada. Já fui torcedor. Por uma vitória do Botafogo, eu seria capaz de transpor as muralhas da China erguidas pelo imperador Che Huang-ti.
Atrás do campo do Vasco, ficava a chamada Barreira do Vasco, um morro colossal. A barreira era o próprio Barbosa. Fechava o gol o felino Barbosa. Ninguém, antes dele, foi capaz de abreviar uma defesa aérea, usando o expediente de espalmar a bola de mão trocada. O gesto era acrobático. O gesto antecipado tem um sentido prático: quanto mais cedo o goleiro alcança a bola menor será o ângulo da trajetória. Pois foi Barbosa o primeiro que vi executar a defesa, com exatidão e elegância.
Barbosa tinha uma aura de nobreza que lhe vinha da alma. Conheci-o pessoalmente. Tinha um humor refinado. Era esgalgo e bonito. Os goleiros de então procuravam imitá-lo, no uniforme, sempre escuro, e nos gestos de puro balé. O Maracanã guardará, com saudade, a imagem dele, um perfil de príncipe emoldurado pelas traves do estádio mítico. Mãos curiosas que decifravam as bolas mais difíceis do jogo. Sempre vi o goleiro como a última esperança da equipe. Me lembro de Barbosa, ainda mocinho. Contemplava-o como uma espécie de anjo-da-guarda.
A paixão doentia da imprensa, mais que tudo da imprensa carioca, sepultou em vida o desventurado goleiro Barbosa. Crucificou-o atrozmente, por um gol, uma simples abstração que maltrata e, que às vezes, mata. Barbosa encarnaria a sina trágica do goleiro, infortunado ser em cuja solidão a multidão cega não vê senão abismo e sombra.
Que a morte te absolva, querido Barbosa.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Não chegamos ainda ao meio do ano e já se vê o estrago que o calendário insano já fez nos times brasileiros. A superposição de torneios é um crime que a cupidez dos cartolas impõe aos jogadores. O que está ocorrendo com o time do Palmeiras é caso de polícia.
- O árbitro Cerdeira tem uma figura avantajada no campo. Falta-lhe, porém, um mínimo de condição física pra acompanhar de perto o vai-e-vem do jogo. No Vasco x Botafogo, por apitar a léguas do lance, ele anulou um gol legalíssimo do Botafogo. Ou terá sido por rendição ao empate que é o placar preferido dos árbitros velhacos? Pra ficar no campo, plantado como um espantalho, seria melhor que o senhor Cerdeira passasse a dirigir o jogo sentado numa cadeira tipo árbitro geral de tênis. Pelo menos, ele teria uma visão mais panorâmica do jogo. Com a visão do beco, é impossível apitar direito.
- No camarote do Banco do Brasil, durante a Davis, encontrei gente ilustre aos potes: Jaqueline, Tande, Giovane, Radamés, Ari Graça, todos amantes do belo esporte que é o tênis. Pra aprender mais do jogo, assisti a uma das partidas sentado ao lado de Chiquinho Leite Moreira, o catedrático do ‘‘Estadão’’.

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