É longe do tatame que o professor Vinicius Canevari, 28 anos, se dedica para ''finalizar'' um inimigo invisível. O estigma de esporte violento acompanha o jiu-jitsu desde que a arte ganhou espaço na mídia nacional e se transformou em sinônimo de confusão em bares e boates. ''Não posso negar que essa imagem infelizmente nos persegue. No jiu-jitsu, encontramos algumas pessoas que só pensam em arrumar encrenca e denegrir o trabalho de profissionais sérios. A imprensa também é um pouco responsável na criação desse mito, já que muitas vezes divulga informações que não condizem com a verdade'', avaliou o carioca Canevari, fisioterapeura, há 13 anos praticando e ensinando o jiu-jitsu.
Em sua academia, ao invés de incentivar brigas e promover desafios de ''vale tudo'', Canevari prefere o prazer de trabalhar com crianças, profissionais liberais, deficientes visuais e até auxiliar na recuperação de dependentes químicos. Um deles, depois de deixar uma clínica especializada, encontrou no esporte o incentivo para deixar o vício do crack. ''Já tive a oportunidade de trabalhar em dois casos. Foram experiências muito gratificantes. Um dos meninos se adaptou muito bem ao nosso ambiente e continua treinando até hoje'', contou.
Quando ensinava em sua academia no Rio de Janeiro, Canevari desenvolveu um trabalho específico com crianças priorizando, de uma forma lúdica, exercícios de coordenação motora e o desenvolvimento muscular. ''A partir dos 6 anos, a criança já pode começar a dar os primeiros passos no esporte. Se ela apresenta um quadro de introspecção, com problemas de relacionamento social, o jiu-jitsu pode ajudá-la a ganhar autoconfiança e superar seus medos'', argumentou.
Procedimentos éticos parecem mesmo inerentes à personalidade do professor. Muitas vezes intimidado a desafios ''relâmpagos'', ele admite que em várias oportunidades teve de ''engolir sapos'' para não riscar a imagem de sua academia e do jiu-jitsu em específico. ''A gente tem que dar exemplo antes de exigir qualquer coisa dos alunos. Faço tudo para me ver livre de encrencas. Tenho um nome a zelar na cidade'', ponderou.
Depois da popularização dos torneios de vale tudo, organizados com mais intensidade nos EUA e Japão, o jiu-jitsu ganhou visibilidade nacional e incorporou o status de arte invencível ou superior. ''Esse quadro realmente acaba atraindo pessoas mal intencionadas. A fama de arte invencível ganhou espaço há alguns anos, quando ninguém conhecia as técnicas do jiu-jitsu. Hoje, o jiu-jitsu não tem mais segredo, está aberto para todo mundo'', avaliou.
Canevari relata a história de um de seus alunos, conhecido na cidade por suas atitudes algumas vezes violentas, que acabou se apaixonando pela filosofia do jiu-jitsu e abandonou a predisposição em arrumar brigas. ''Todo aquele ímpeto que ele tinha, acabou sendo canalizado para as competições. Hoje, ele é um grande campeão, com títulos no Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro'', orgulha-se.

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