A eterna convocação de uma bióloga para Copas do Mundo
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sábado, 15 de abril de 2006
Fellipe Awi<br>Agência O Globo 
Rio de Janeiro - A cada quatro anos, a bióloga paulista Maria de Lourdes Macoris divide seus estudos sobre o mosquito Aedes aegypti com as seções esportivas dos jornais. Este ano, já sabe que existe um quadrado mágico na seleção brasileira. Já é alguma coisa, o resto ela aprenderá na Alemanha. Foi assim na França e no Japão e será assim na África do Sul e onde mais a Fifa organizar uma Copa do Mundo.
Em 1998, Maria de Lourdes ganhou uma promoção que, para qualquer torcedor, é tão perfeita que parece irreal: ir a todos os Mundiais de graça até o fim de sua vida. Ela nem gosta muito de futebol, mas ficou viciada em Copa do Mundo. Só conhece um estádio de futebol no Brasil, o Adhemarzão, de Araçatuba (SP). Dos sete jogos a que assistiu na vida, seis foram em Copas. Alguns tristes, como a derrota para a França na final de 98, outros alegres como a decisão com a Alemanha quatro anos depois. ''Só quem esteve lá entende o que é. Parece um sonho'', afirma.
O sonho começou porque Maria de Lourdes não aguentava mais perder capítulos do seriado americano ''Seinfeld''. Ela comprou um videocassete sem saber que havia a tal promoção da Evadin/Mitsubishi. Avisada pela irmã, voltou à loja e preencheu o cupom. A Copa já havia começado quando soube que, em dez dias, estaria na França para as quartas-de-final do Mundial. ''Como não gostava de futebol, pensei em ir ao primeiro jogo e depois só fazer turismo. Mas quando se entende o que é uma Copa, não dá para perder mais nada'', conta ela.
O mais incrível é que existem outros nove brasileiros tão sortudos quanto Maria de Lourdes. Ou melhor, oito. Elma Ursulina da Silva, moradora de Angra dos Reis (RJ), ficou desconfiada quando recebeu a notícia de que ganhara a promoção. Primeiro, achou que era brincadeira, depois teve medo de viajar sem o marido e, por fim, desistiu. Antes do Mundial de 2002, mudou de endereço e não avisou aos organizadores da promoção. Foi publicado até anúncio num jornal de Angra para tentar localizá-la, mas Elma deu um chute na sorte.
Maria de Lourdes agarrou-a como um grande goleiro. Em 2002, foi a única que superou o medo de viajar para o Japão poucos meses depois do atentado ao World Trade Center. Os organizadores abriram uma exceção e deram aos sorteados a opção de receber o prêmio em dinheiro. Só ela viajou. ''Copa não tem preço'', alega a bióloga, de 43 anos.
Não se arrependeu. Do outro lado do mundo, arrumou amigos numa excursão de cariocas. Com eles, tentou decifrar pratos japoneses. Comeu muita coisa sem saber o que era, mas entendeu muito bem o significado do gesto de Cafu ao levantar o troféu de campeão do mundo. ''Quero muito reviver este momento na Alemanha''. Ao contrário de Cafu e qualquer outro craque, Maria de Lourdes terá outras chances enquanto estiver viva.


