A dura realidade dos times pequenos
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quarta-feira, 16 de maio de 2012
Thiago Mossini <br> Enviado a Budapeste 
Budapeste - Meio dia na pequena Halásztelek, situada na região metropolitana de Budapeste, capital da Hungria. Os jogadores do Clube Atlético Cambé se preparam para almoçar, mas o técnico Walbert Martins, o Knário, terá que aguardar. Antes de comer, precisa dobrar e separar a roupa dos atletas que foram lavadas, já que à tarde tem treino. Essa é a realidade de um clube pequeno. Poucos uniformes para treinar e a multiplicações de funções dos funcionários. Realidade que vive boa parte das equipes mundo afora.
Mas essas limitações não impediram o clube de fazer sua primeira excursão internacional. Serão cinco amistosos na Hungria, algo que muito clube grande não consegue fazer. Se por um lado não haverá o glamour como nos jogos de grandes equipes, por outro, a marca do CAC e os jogadores serão expostos em um novo mercado promissor, o húngaro.
''O Leste Europeu não foi atingido pela crise do restante da Europa. Aqui o mercado está aquecido e crescendo. A Hungria não é diferente. O jogador desembarca aqui e se ele se destacar, é negociado com algum clube maior daqui mesmo ou então com esses mercados emergentes, como Ucrânia, Romênia, Rússia e outros'', explicou Reginaldo de Oliveira, consultor de futebol da empresa Puebla KFT, uma gigante no setor de tickets refeição, que atua também no futebol e é a parceira do CAC nos amistosos na Hungria.
A FOLHA embarcou nesta aventura cambeense pela Hungria. Aventura que já começou com um problema: uma bolsa com bolas e uniformes foi esquecida no ônibus que levou parte da equipe e o técnico Knário de Londrina para São Paulo, onde eles tomariam o voo para a capital húngara. Isso significa prejuízo para a direção do clube e ainda menos materiais para treino.
''Foi R$ 2,5 mil, calculando por cima, o nosso prejuízo nessa brincadeira'', lamentou um dos gestores do clube, o ex-jogador Edenilson Franco, o Pateta. Ele é um dos sócios da Pat Sports, que no ano passado geriu a Platinense e fez a mesma excursão. O outro sócio é Marcelo Martins, empresário em Cambé.
Knário é o técnico do CAC, mas também tem que se desdobrar em outras funções durante a estadia na Hungria. Para diminuir os gastos, a direção da equipe reduziu o número de profissionais que viajaram para o Velho Continente. Assim, ele tem que fazer de tudo, desde a função de roupeiro até a de treinador. Mas o folclórico técnico não reclama, não. Dobra as meias, calções e camisas com o maior prazer e dedicação.
''Eu estou acostumado com isso. Sempre trabalhei assim. Até na primeira divisão (do Paraná) com a Portuguesa eu era assim. Com exceção da época em que trabalhei na Junior Team, sempre fui roupeiro, massagista, treinador. Não dá para trazer a comissão técnica inteira'', comentou o comandante cambeense.
Pateta endossa o que o treinador disse. ''Temos a ajuda do parceiro húngaro, mas mesmo assim os valores de uma viagem como esta são altos. Gostaríamos de estar aqui com uma estrutura completa, com seis pessoas na comissão técnica, mas não é possível'', lamentou.
Para diminuir os custos, parte do jogadores embarcou para a Hungria alguns dias depois do primeiro grupo. ''Há uma diferença de preço nas passagens e precisamos fazer isso para reduzir custos'', explicou Pateta.
Euforia
Knário está eufórico. É a primeira vez que sai do Brasil. Está deslumbrado com tudo o que vê. Mas já avisou: não trabalharia por aqui. ''Para mim está sendo bom para conhecer, para reciclagem, mas não largo o Brasil não. A não ser que seja uma proposta muito grande'', afirmou. ''Quero ser o 'rei do acesso' no Paraná'', completou o treinador que faz parte do grupo dos batalhadores da bola, aquele pessoal que trabalha muito e ganha pouco.
Para treinar, os jogadores fazem uma caminhada de aproximadamente 20 minutos até o campo do Halásztelek FC, time amador da cidade, sempre embalados pelo hit do momento entre a boleirada, ''Eu quero tchu, eu quero tcha'', da dupla João Lucas e Marcelo. O time conta com estrutura melhor do que muitos clubes brasileiros, inclusive do Complexo Castelo Branco, onde o Cambé treina. ''Aqui não tem desculpa para errar'', disse o treinador, impressionado com a qualidade.
Para Pateta, o esforço e as limitações não atrapalham e sim fortalecem a equipe, que precisa impressionar os vários olheiros que estão em cada jogo. ''Nosso objetivo é preparar o Cambé para a Terceira Divisão, mas também é mostrar os jogadores. Precisamos das negociações para poder fazer caixa para o restante do ano. Somos um clube pequeno, vivemos com dificuldades, mas estamos aqui, fazendo o que muito clube maior quer, mas não consegue'', ressaltou o dirigente.
Quando estava na Platinense, conseguiu deixar 13 jogadores na Hungria, a maioria emprestada com valor de venda estipulado. ''A ideia é essa. Se não vender, fazer um empréstimo para ter uma expectativa de entrar recursos em um prazo curto, até porque os valores aqui não são altos'', apontou.
Já os jogadores enxergam nestas cinco partidas que farão um divisor de águas na carreira. Boas atuações podem significar uma mudança drástica no futuro não só do atleta, mas da família toda.
''Meu sonho sempre foi jogar fora do Brasil, ganhar dinheiro e poder ajudar minha família, meu pai, minha mãe, que estão na luta comigo desde criança'', afirmou o volante Evandro, 22 anos, que já está na terceira tentativa no Velho Continente. Em 2008, quando defendia o Brasat, de Brasília, disputou jogos em Amsterdã e Barcelona. No ano seguinte, voltou à Holanda com a mesma equipe. ''Não deu certo daquela vez'', lamentou.
Marcos Tanque, atacante de 20 anos, já passou três temporadas em um clube japonês. Ele é o cantor do grupo e também um dos mais promissores do elenco que o Cambé trouxe para a Hungria. É a aposta de Pateta para encabeçar a lista de negociações. As dificuldades não incomodam o jogador. ''Pelo contrário, é uma motivação a mais para chegar ao objetivo que é ficar (na Europa). A gente não se esquece de onde veio'', disse o camisa 9. ''Se não tiver o objetivo, não chega a lugar nenhum. São as barreiras que Deus coloca nas nossas vidas'', completou Evandro.


