A dura realidade de um time sem dinheiro
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quarta-feira, 31 de maio de 2006
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Os jogadores do Arapongas estão fazendo valer na Divisão de Acesso do Campeonato Paranaense aquele ditado do mundo do futebol de que o atleta ''vai na bola como se fosse um prato de comida''. Pois é justamente essa a recompensa que eles recebem por defenderem as cores do clube. Sem salários, os jogadores se contentam em ter o que comer e onde dormir.
''É duro você jogar com a cabeça nos problemas, nas dívidas. Mas precisamos estar em atividade'', disse o zagueiro Fábio Arruda, 18 anos. O jogador veio de Salvador há um ano e diz não ter recebido um centavo sequer.
O conto de fadas vivido pelo Arapongas antes do início da Segundona não durou nem um mês e sobrou para os jogadores, que dormiram sonhando com o mercado europeu, de onde veio o ex-treinador, e acordaram com a dura realidade de um time que só tem o profissionalismo no nome.
A parceria apresentada em um dos melhores hotéis da cidade com a empresa inglesa Three Sports, que trouxe o ''revolucionário'' técnico português Alfredo Lopes, durou apenas alguns dias. O conflito de interesses entre dirigentes e parceiros fez com que cada um seguisse o seu caminho, deixando para o elenco as consequências.
Logo após o rompimento, nem comida tinha na mesa dos jogadores. O time estreou contra a Portuguesa Londrinense, no dia 14 de maio, às 10h30. De acordo com um grupo de jogadores, o time acordou por volta das 7h30 e cada atleta recebeu como desjejum apenas um copo de chá e um pão puro.
''Teve dia que almoçamos feijão, arroz e farinha apenas'', contou o preparador-físico, auxiliar-técnico, conselheiro dos jogadores e responsável pela república onde eles moram, Marcelo Guarujá, 24 anos.
Ele não recebe salário desde o fim do ano. ''É complicado, tenho filha pra criar. Não é mole'', lamentou.
O santista Guarujá foi quem abraçou a causa do clube. Com a debandada dos supostos invistidores, ele virou uma espécie de faz tudo e convocou os amigos espalhados pelo Brasil para ajudá-lo. A mãe veio de Santos para ser a cozinheira do time. O irmão abandonou momentaneamente a carreira de lateral-direito para ser o massagista.
Além deles, veio um grupo de jogadores que não estavam sendo aproveitados. ''Prometi para eles que pelo menos a comida teriam. Depois eu tentaria arrumar um emprego para cada um'', disse Guarujá. ''Aqui (em Arapongas), é uma vitrine e os jogadores precisam estar em atividade para serem vistos'', disse. ''Abraçamos a causa e estamos juntos até o fim. Vai ser bom para gente e bom para o clube'', comentou o volante Wellington, vindo do J. Malucelli.
Guarujá também interrompeu a carreira. Era meia e jogou no Noroeste-SP e Rio Branco-PR. ''Ano que vem eu volto a tocar minha carreira. Agora quero ajudar os meninos aqui''.
Sem estrutura Enquanto não volta, Guarujá passa as mesmas necessidades dos jogadores. Mal tendo comida na despensa, ônibus para o treino se torna ítem de luxo no Arapongas. Desta forma, são 40 minutos de caminhada até chegar ao Estádio dos Pássaros. Transporte, só em dia de jogo.
Material para treinamento também é coisa rara. O time tem apenas um uniforme para treinamento, que sobrou do time júnior. Eles também não têm tênis apropriados para os treinamentos físicos. A maioria usa tênis de futsal.
A situação só não chegou ao limite porque alguns empresários se sensibilizaram e estão colaborando com comida. Até então, os jogadores se contentavam em se alimentar da esperança de que um dia conhecerão o futebol que sonhavam praticar quando crianças, aquele da televisão, onde tudo é maravilhoso.


