A dupla Gil-Liedson!
O jogo decisivo do título paulista não foi o portento que se esperava. Seria difícil repetir o padrão superlativo do primeiro jogo. Pra começo de conversa, o São Paulo jogou desfalcado de seu astro maior, que é Kaká. Se o empate já era uma espinha na garganta, a ausência de Kaká teria, como teve, reflexos adversos no rendimento da equipe tricolor. O tema Kaká ainda dará panos pra manga, nos bastidores do tricolor. Será que uma simples contratura, sofrida em fevereiro, não poderia ter sido curada antes das finais do campeonato?
Ainda assim, o jogo transcorreu sempre lá e cá. Com uma diferença: o time do São Paulo, que já não tinha Kaká, ficara reduzido a um único atacante realmente incisivo, o mercurial Luis Fabiano, desde que o outro atacante de gol, o eficiente Reinaldo, foi expulso, aliás, muito bem expulso. Ele parecia um tanto transtornado, emocionalmente. E o lamentável da história é que o cartão vermelho acabaria arrastando também o jogador Kleber. Sinceramente, não vi nada que justificasse a expulsão do sempre sereno lateral do Corinthians.
Os dois times trocavam estocados, constantemente. Sucede que as incursões do Corinthians eram mais perigosas. E é aqui que entra a explicação da vitória e do título. O time alvinegro dispõe de dois atacantes simplesmente infernais. Notadamente, Liedson. Qual seria a virtude maior desse franzino jogador que, de atleta não tem nada? Liedson é, na aparência, a própria fragilidade. Acontece que, no confronto com os zagueiros, ele assume um ar quase insubstancial. Só assim se explica a rapidez de raio com que ele gira o corpo. Num átimo, ele está, não só diante das traves, mas adiante do marcador. Não existe, hoje, no futebol brasileiro, um jogador com tamanha capacidade de trocar de posição com o zagueiro. Some-se a essa prodigiosa qualidade um faro de gol que faz dele um artilheiro irresistível.
Como se não bastasse o felino Liedson, o time do Corinthians ainda se farta da velocidade de Gil. Eu já o comparei a Jairzinho, na vertigem das escapadas pela ponta. A rapidez de Gil está naquela medida que a gente só costuma ver nos velocistas do atletismo. Ele acelera de tal forma a corrida que ninguém o acompanha. E nem adianta apelar porque a pernada maldosa chegará sempre atrasada. Aliás, graças a Deus! A desaceleração de corpo em tal velocidade pode provocar um acidente sério.
O time do Corinthians venceu, duplamente: derrotou o rival, no campo, e derrotou também, uma eventual questão litigiosa que poderia levar a decisão pro campo melancólico dos gabinetes.
Hora de retocar
A seleção vai jogar contra Portugal. Parreira tem dito que não pretende mudar nada. Afinal, argumenta, a equipe que tem em mãos está consagrada pelo título de 2002. Acho que o treinador deve conter um pouco seu entusiasmo. A seleção campeã não jogou um futebol impecável que não mereça retoques. Visto com os olhos do coração, foi uma maravilha. A vitória embriaga; às vezes, literalmente, quase sempre, metaforicamente. Numa avaliação mais serena, porém, a equipe não chegou a empolgar os analistas mais serenos. Foi favorecida, duas vezes, por erros de arbitragem que mal escondem os desacertos defensivos da equipe. E mais: os adversários eram todos de classe inferior, com exceção da Inglaterra.
Parreira tem estrada de sobra. Não é possível que ele persista na idéia, temerária, de achar que a seleção, por ter sido vitoriosa, não deve ser alterada. Tomara que o técnico não esteja sendo influenciado pela superstição, que é um dos trunfos de seu parceiro de comissão. Gostaria de estranhar duas convocações: a do zagueiro Chris e do volante Emerson. São dois equívocos.
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