Como em outras profissões, o esporte também tem a sua hora da verdade. Escolher entre continuar a vida esportiva ou buscar outro caminho é a decisão que todo atleta se vê obrigado a tomar quando chega ao último estágio de sua formação, nas categorias de base. É nesta hora que o esporte perde grandes promessas.
Maior paixão do brasileiro, o futebol está repleto destes exemplos. São milhares e milhares de promessas que ficam pelo caminho todos os anos em clubes de todo o mundo. Não há um dado estatístico exato que aponte o número de jogadores que deixam o esporte mais popular do planeta no momento da transição de categorias de base para a equipe adulta, mas o que se sabe, através de levantamentos não-oficiais, é que o número é alto.
Também não há uma pesquisa que mostre quais os motivos destas desistências, mas especialistas consultados pela FOLHA usam a experiência no meio esportivo para apontar o que levam os atletas a desistirem do sonho de tornar-se um esportista de renome internacional.
Atualmente técnico da escolinha do Londrina, o ex-jogador Aléssio Antunes viveu tudo o que seus alunos começam a trilhar hoje sob sua orientação. Os primeiros passos foram ainda no mirim do próprio Tubarão em 1983. Sete anos depois, ele estreava entre os profissionais, onde se firmou e mais tarde partiu para mostrar seu futebol em outros clubes brasileiros.
''Para mim foi bastante tranquila (transição). A filosofia do Londrina já era esta naquela época, de aproveitar a base na equipe profissional. Sempre tinha jogadores dos juniores treinando com os profissionais e isso ajudava muito na hora de se firmar no time de cima, tanto que com 18 anos eu já fazia parte do grupo principal'', relembra o ex-meia, que parou de jogar em 2008.
No entanto, alguns colegas de Aléssio não tiveram a mesma sorte, ou competência. O jovem treinador conta que viu muitas promessas ficarem pelo caminho no ingrato mundo da bola. E não é preciso ir muito longe para lembrar alguns exemplos. Grandes promessas das categorias de base, Warley, Victor e Jayme não se firmaram entre os profissionais. O último até já escolheu outra profissão para seguir.
Quem não se lembra de Kerlon, o Foquinha? Destaque das categorias de base do Cruzeiro, o jovem habilidoso foi vendido para a Inter de Milão-ITA, mas a série de contusões atrapalhou a sua carreira, e hoje ele atua pelo Nacional de Nova Serrana, modesta equipe da primeira divisão mineira. Com uma multa de R$ 50 milhões, Lulinha era a 'galinha dos ovos de ouro' do Corinthians no final da década passada. Hoje atua pelo Bahia, após passagem sem brilho pelo futebol português. Os casos são muitos, e não só no futebol...Samuel Fuchs, ponta do Minas, integrou o grupo da seleção brasileira de vôlei, vice-campeã olímpica em Pequim-2008 e de lá para cá não se firmou mais em equipe alguma.
Para a psicóloga Lívia Fortes, que faz um acompanhamento psicológico com os jogadores do Londrina neste Campeonato Paranaense junto com o esposo e também psicólogo Marcos Silva, a falta de preparação psicológica é o principal motivo, mas a dupla elenca também outros fatores que fazem muitos jovens atletas desistirem de seus sonhos na última etapa antes do profissional.
Quando o esporte deixa de ser lazer para tornar-se obrigação, é um deles. ''A grande mudança é essa, do prazer para a obrigação, pois a partir deste momento o atleta já não é mais cuidado como uma promessa, ou corresponde ou vai ter que procurar outra equipe'', explica Silva.
Lívia destaca ainda o alicerce familiar, que também pode fazer diferença na formação esportiva. ''Se é uma estrutura fraca, quando chegar no profissional e ele (atleta) não conseguir lidar com a cobrança, pode decidir não mexer mais com aquilo'', completa.

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