A difícil hora de parar
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sábado, 13 de abril de 2013
Gonçalo Junior <br> Agência Estado 
São Paulo - Mesmo aos 40 anos, Rivaldo foge da aposentadoria como o diabo da cruz. Romário parou de jogar aos 42 anos, mesmo assim, a contragosto. Marcos só parou porque não aguentava mais as dores. Também quarentão, Rogério Ceni se conforma que "provavelmente" esta será sua última Copa Libertadores da América. Não é à toa que o fim da carreira é um tabu para os atletas. Se as letras de "adeus" choram, como cantou Francisco Alves, que dirá daquelas da palavra "aposentadoria", que representam uma despedida de si mesmo.
A professora Katia Rubio, especialista em Psicologia do Esporte e autora do livro "O atleta e o mito do herói", dá sua versão para essa paúra. "Ao longo da vida, os jogadores são entidades endeusadas e admiradas. Eles não são pessoas físicas. Assumem a identidade de heróis. Nesse sentido, parar é como se fosse uma morte em vida", afirmou.
O empresário Gilmar Rinaldi, que encerrou sua carreira como jogador aos 37 anos, concorda com a professora, mas pinta o mesmo quadro com tons pastéis, mais suaves. "Eles não têm tempo de pensar em outras coisas. Por isso, é difícil encerrar a carreira".
Para ganhar uma sobrevida nos gramados, a maioria muda de posição, constatação do psicólogo do Esporte Rodrigo Scialfa Falcão. Foi assim com Baresi, Matthaus, Seedorf, Zé Roberto... Afinal, quem tem de correr é a bola, como disse o técnico Neném Prancha. Existe, no entanto, uma insuperável limitação física. Aquele milésimo de segundo que fez Alexandre Pato bater a carteira de Rogério Ceni no clássico São Paulo x Corinthians. "É o tempo de reação. Isso não tem jeito de reverter", disse Falcão
Em outros esportes, os atletas não têm receio do recomeço. George Foreman parou em 1977 e voltou em 1987 para ser campeão no boxe em 1994. Mesmo fininho, Michael Schumacher voltou às pistas da Fórmula 1, mas não repetiu o sucesso e entregou os pontos.
Futuro
É tão difícil parar porque os jogadores de futebol não fazem uma lição de casa que, cá entre nós, pouca gente traz em dia: pensar no futuro. "É difícil para o ser humano pensar no depois. Nossas demandas são para aqui e agora. A gestão de carreira não é um problema só do futebol. A maioria das pessoas não faz isso", disse Luciana Ângelo, vice-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp). "A grande maioria dos jogadores não planeja sua aposentadoria", afirmou Luis Eduardo Pinella, diretor financeiro do Sindicato de Atletas de São Paulo. "Poucos fazem a gestão de sua carreira".
Gerir a carreira significa aproveitar os altos rendimentos de hoje para pensar no que fazer depois, quando terminar a bonança, que dura entre 20 e 25 anos. É um planejamento que vai além do que faz hoje o staff de Neymar, que trata principalmente da imagem do melhor jogador do Brasil. É mais ou menos o que faz o corintiano Paulinho, que contratou um escritório financeiro para cuidar de sua vida. Os assessores tratam de seu orçamento familiar, dos investimentos - os preferidos do corintiano são o mercado de ações e os imóveis. "Antes mesmo de ir para a Europa, ele já tem seu pé de meia", disse um amigo.


