Paulo Briguet
Na quarta-feira, esta coluna gastou algumas linhas e a paciência do leitor para definir o Complexo de Celular, mal que afetaria jogadores brasileiros no futebol contemporâneo. A saída de Denílson me faz voltar ao assunto.
A comparação, recapitulando, foi mais ou menos a seguinte: usuários neófitos do telefone celular deixam o aparelho ligado em situações inoportunas; atletas da bola, diante de contratos milionários, não se desligam da grana e, com isso, perdem a cabeça e os pés.
Não generalizo. Há donos de celular que jamais dispensam as boas maneiras; há jogadores que mantêm a serenidade diante dos chamados telefônicos do mercado, do patrocinador, do empresário, dos cartolas brandindo ameaças e quebras de contrato.
O Complexo de Celular, portanto, afeta os jogadores, mas não depende só deles. Para todo Édipo, há que se ter uma Jocasta. Para todo atleta de seleção, há o cartola, o empresário, o patrocinador, o advogado. Há, numa palavra, o dinheiro.
Em vez de atuar no universo dialético do gramado, craques acabam sendo desviados para o jogo de azar do capital. Atendem telefone dentro de campo e são devorados pela esfinge.
Denílson é uma vítima do Complexo de Celular. Wanderley Luxemburgo, desta vez, agiu corretamente ao cortá-lo da Seleção. Com o gesto, o técnico barrou o Complexo de Celular em sua origem. Desligou Denílson antes que o telefone do mercado soasse dentro do gramado, prejudicando o desempenho do atacante e, em efeito dominó, toda a equipe. Ponto para Luxa.
É difícil definir a parcela de culpa do próprio Denílson diante da situação. Não sabemos em que medida ele foi manipulado pelos diretores de seu time espanhol, o Real Bétis, ou pelas exigências contratuais, ou pelo veredicto da Fifa, todas essas ligações perigosas que se tornaram o inferno do jogador nos últimos dias.
Talvez, Denílson pudesse ter sido mais enfático no propósito de permanecer na equipe. Por que não fincou o pé? Por que não ignorou as ameaças de rompimento de contrato? O medo de perder dinheiro foi mais forte que o medo de sair da Seleção?
Não sei se a Denílson era possível evitar a saída, dentro das circunstâncias, pressionado pelos contratos de imagens e declarações furiosas dos cartolas espanhóis. Lembremos que a posição do atacante já estava enfraquecida desde o momento em que defendeu prêmios em dinheiro para a conquista do Pré-Olímpico (muito embora tudo tenha se originado de uma gafe de Wanderley Luxemburgo).
De nada adianta jogar o peso do mundo sobre as costas de Denílson. Ele – que já participou de uma Copa – parece ter consciência de que a Seleção Brasileira é o ponto alto para qualquer atleta. A decepção e as lágrimas do jogador, quando o corte foi anunciado, me pareceram sinceras.
Esta coluna espera que, no futuro próximo, Denílson tenha melhor sorte nos seus conflitos e contatos com o mercado do futebol. Se mostrar diante dos cartolas 1% da habilidade revelada em campo, poderá driblá-los facilmente e partir para o abraço.

POUCO SEXO
Um dos raros momentos de descontração entre os membros da delegação brasileira de futebol pré-olímpico aconteceu na tarde de ontem. Ao se despedir do lateral esquerdo Fábio Aurélio, no saguão do hotel onde estão hospedados, o treinador Wanderley Luxemburgo determinou, bem-humorado, que o jogador não exagere no sexo e volte com toda força no sábado. O lateral estava embarcando para o interior de São Paulo, onde casa-se hoje à noite. Jornalistas e funcionários da CBF que presenciaram a cena caíram na gargalhada. Depois de descobrir que o comentário havia sido notado, Luxemburgo desejou felicidades ao noivo, ainda em tom de brincadeira. Fábio Aurélio casa-se hoje em São Carlos, no interior paulista.
EXAGERO
As dezenas de pessoas que se aglomeraram, na tarde de quinta-feira, para assistir o comboio da Seleção deixar o hotel onde se hospeda não devem ter entendido muito bem o que viram. Os dois ônibus – um é reserva e segue vazio o da CBF – rodaram por alguns quarteirões, às vezes na contramão do trânsito, para levar os jogadores a uma academia de musculação que fica a menos de duas quadras do hotel. ‘‘É muita frescura, um exagero. A gente só quer ver um pouco mais de perto nossos ídolos, mas a polícia e o pessoal da segurança não deixam’’, reclamou uma estudante, que tem feito plantão em frente ao hotel, na Rua Quintino Bocaiúva. Torcedores que foram a pé chegaram à academia – na Rua Paraíba – antes dos jogadores e da comissão técnica da Selação. Sem tumultuar o trânsito e sem gastar combustível.