Coluna de
Paulo Briguet
De Londrina-PR
A coruja que vive nas dependências do Estádio do Café agora está mais calma. Sente-se como a dona da casa que respira aliviada quando os hóspedes vão embora. Como toda boa anfitriã, durante o Pré-Olímpico, teve prazer em receber e deixar as visitas à vontade; mas também perdeu a tranquilidade necessária para suas reflexões. (Lembre-se: a coruja do Estádio do Café é uma pensadora).
A dona da casa agora descansa. Só que o alívio se confunde com um certa melancolia da despedida. Pois o gol, lugar natural da coruja, está vazio. Como vazias estão as arquibancadas, as cadeiras cativas, a tribuna de honra, as cabines da imprensa, o gramado. O placar dorme em seu eterno 0 a 0. E a coruja olha para cada um dos zeros como se eles fossem o espelho dos seus olhos de filósofa.
O silêncio que invade o campo é igual àquele que se abate sobre a república de estudantes, depois da festa de arromba.
Que venha a Olimpíada. No Café, sozinho e silencioso, para sempre haverá a consciência de Alex fazendo seu gol de cobertura; a vaia da galera uivando sobre o desempenho medíocre da Seleção nos primeiros jogos; o urro das arquibancadas saudando os 9 a 0; a doce vitória sobre a Argentina; o desespero na feição do atacante colombiano que pede a Marcos Paulo: ‘‘Me deixa fazer um gol, por favor!’’
Haverá (e a coruja sabe) um chileno voltando para casa depois da virtual desclassificação de seu time; e retornando de Santiago a Londrina apressadamente depois do milagre brasileiro. Eis que a coruja encontrará, para sempre, o exigente torcedor Praxedes a berrar:
– Timinho, timinho!
Os repórteres de rádio falarão por cinco horas, ininterruptamente. O torcedor Zeca vai procurar um sentido para isso tudo, e verá que não existe nenhum, pois o futebol pertence ao império da irracionalidade. Enquanto isso, Ronaldinho estará comemorando seus gols. Ditão Enfermaria, aquele zagueiro que não perdoa nem ponderação, dirá: ‘‘Esse aí eu já tinha acertado antes de começar o jogo’’. Luxa balançará sua gravata em dança particular, o ex-goleiro Raul Plasmann chamará o garçom, Galvão Bueno vai proferir bobagens em rede nacional e Hiroshi, o rei das estatísticas inúteis, gritará que o número de pagantes é 38.006. Isso mesmo: 38.006. Mas agora (tristeza!) o Estádio do Café só tem um torcedor: a coruja.
Pensar que tudo está vazio: o Pré-Olímpico, meu amigo, acabou.
A Seleção Brasileira logo estará em Sydney, do outro lado do mundo, onde os cangurus têm mais fama que as corujas. A dona do Estádio do Café pretende acompanhar todos os jogos do Brasil pela TV, esperando iluminações de Alex e Ronaldinho, e se lembrará dos belos dias em que eles fizeram tremer as redes do Café. Posso até ouvir os pensamentos da coruja: ‘‘Esses meninos já estiveram na minha casa’’.
Sobrevoando a cidade, a coruja sabe que existem outras questões a resolver. Como sempre, ela irá visitar o mundo real em seus vôos noturnos. Encerrado o espetáculo do Pré, espera-nos um longo e difícil após. Não apenas na Terra do Canguru, mas aqui também, na Terra da Coruja.
O jornalista Luiz Geraldo Mazza disse que Londrina é miniatura do Brasil. A coruja do Estádio do Café aprova a definição – no futebol e nas atividades extracampo. Essa miniatura, criada sobre a terra vermelha e os gramados silenciosos, está agora entregue a si mesma, a seus escândalos e virtudes, horrores e belezas, lamas e flores. Testemunha ocular do espetáculo, a coruja apenas adapta o refrão dos oráculos gregos: ‘‘Londrina, conhece-te a ti mesma’’.
E-mail: [email protected]

mockup